segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Look But Don't Touch": educar para o combate

Quando se trata de ser mulher e feminista, tem dois assuntos que rondam frequentemente minha cabeça, sendo eles: educar crianças feministas e manter-se fortes diante das escolhas feitas, com consciência de suas consequências. 
Ser feminista não será fácil ainda por muito tempo, sobretudo pelas constantes confusões que são feitas acerca do que é ser feminista. Não vou explicar isso agora, pois não é foco do texto, mas feminismo não é antônimo de machismo, opõe-se a ele, mas não é ele ao contrário. 

Este texto tem como fim refletir um pouco sobre educar crianças feministas, principalmente meninas - apesar de considerar o educar meninos feministas uma tarefa árdua, pois há muito mais a que se enfrentar ao optar, por exemplo, em comprar uma cozinha de brinquedo para um menino ou ao ensiná-lo que fazer carinho e cuidar de quem ama é importante. Refletirei também sobre a postura combativa assumida por várias mulheres diariamente. 
O ponto forte dessas reflexão é ensinar as crianças a compreender o mundo em que vivemos e combater considerando as consequências dos seus atos; é preciso prever as consequências e se munir para o combate. Isso ficou muito claro para mim quando ouvi uma mulher falando em uma entrevista como se comportava para se sentir empoderava e eu identifiquei o que eu também sempre fiz - de forma automática - em sua fala, me fazendo entender muito sobre esse combate diário. Na entrevista, a moça dizia que todos os dias, quando precisava ir à algum lugar, ela colocava sua roupa, erguia sua cabeça e caminhava de maneira firme, altiva. Por ser mulher, gorda e negra. Eu sou mulher e gorda e também sempre fiz isso, pelo mesmo motivo que aquela menina fazia: não me sentir menor por causa dos olhares das pessoas, por causa de seus julgamentos, das suas avaliações, fazia para me sentir bem e forte diante de seus olhares. Quantas vezes ouvi amigas e amigos perguntarei sobre a minha maneira agressiva de caminhar pelos lugares, sobretudo quando estava sozinha. Minha resposta era sempre uma negativa, tentando me apegar à uma essência minha, algo natural. Não era o que acontecia, aquela agressividade era eu me defendendo dos olhares por ser gorda e me escondendo dos olhares por ser mulher. Era a minha forma de ser combativa. 
E é sobre isso que devemos conversar com nossas meninas - filhas, sobrinhas, irmãs e etc. Sobre como o mundo olhará para elas e como elas não devem achar que esses olhares devem definir suas formas de ser, pois elas são fabulosas da forma que são. Devemos fazer com quê nossas crianças entendam como a sociedade patriarcal e capitalista em que vivemos funciona, o que ela constrói e o que ela destrói (nas pessoas, sobretudo). Se uma menina compreende como essa sociedade em que vivemos funciona, ela poderá entender que ao optar por sair com seu vestido curto quando já for adolescente ela deverá estar pronta para ser combativa - eu disse, ela deverá estar pronta, mas não de prontidão, à espera do combate. O ponto aqui é estar consciente sobre o que a saia curta representa para muita pessoas e a meninas não pode ser inocente sobre isso. É evitando a violência que ela poderá sofrer que tornaremos nossas meninas fortes. 



É ensinar que ela pode dançar do jeito que ela quiser, mas se um menino passar a mão em suas pernas por considerar que ela está sendo sensual e convidativa demais, ela pode fazer escândalo e afirmar com toda sua força que não quer ser tocada, que ela está apenas dançando com seu corpo, aquele corpo que pertence apenas a ela. 
Eu sempre falo sobre o risco de criar vazios nas formas sociais ao gritar por igualdade e desejar o fim de uma ordem posta sem apresentar novas formas de agir socialmente. Estamos há muito tempo nesse período de transição, em que homens e mulheres começam a compreender como devem se portar para criar uma sociedade objetivamente equânime  e que respeite as diferenças subjetivas. E isso só será possível se nossos meninos e meninas compreenderem que precisam saber escolher e se responsabilizar sobre suas escolhas, estando atentos e atentas à elas. 
Se um menino escolhe ser rude e passar a mão em uma menina por considerar que sua sensualidade o convida, ele deve assumir a responsabilidade pela resposta que ela dará à sua atitude. 
Se a menina opta por exercer sua liberdade através de suas roupas curtas ou decotadas, ela deverá está atenta aqueles que provavelmente considerarão tal liberdade um convite à libertinagem, ela deve estar pronta ao combate. 
Não se faz uma revolução sem dor, não se faz mudanças sem ferir a alma, mudar dói mesmo, mas talvez manter o sistema antigo doa muito mais. Sejamos combativas e combativos em nome da igualdade. 
Sejamos fortes!