quinta-feira, 28 de julho de 2016

Tributo antropofágico: Sobre pessoas famintas e pessoas fartas

Thomas Hobbes

Se me coloco a pensar nos dias que passaram, no hoje e nos que virão, já não quero mais habitar este mundo que tenho habitado. A cada dia que passa (deve ser a idade) perco-me da leveza e sinto-me cada vez mais próxima ao chão, áspero e doente. 
Parece que me encontro na sala dos espelhos. As imagens ali diante dos meus olhos são tortuosas, estranhas à mim, é um terror ver-me refletida como algo que não sou. Eu não sou essas outras pessoas que vivem ao meu redor, mas se estão ao meu redor, quão não-eu elas são de fato? Se foram essas as pessoas com quem aprendi - positiva ou negativamente -, se foram elas que passaram pela minha vida e tem passado, se eu sou do tipo que "atrai pessoas loucas" o que eu sou senão louca?
É ser Alice no pais das maravilhas a se considerar a única pessoa normal, correta, sã naquele mundo, mas se ela é a única (autoconsiderada) sã, o que ela é? Você já está louca, como todos os outros seres ali, não mantenha a ilusão.
Considerar-se deveras humana é um absurdo que não possui cabimento - não cabe, não encaixa, é excedente. Humanizar-se é tentar ser o que não se pode ser. Primatas do pior tipo. Essa tal capacidade de raciocinar é que nos causa defeito. Seres débeis. Somos seres famintos do possuir. Famintos do poder. Acumulantes. Apegados. Autodestrutivos. 
Não existimos sem disputas de minuto à minuto. Não são disputas diárias, não é um leão por dia, não, não, não. A cada novo encontro, nova disputa. Não temos tempo para catar piolhos na cabeça de outro primata. Nem para nos esticarmos soberanamente à mostrar nossas bolas ao público. 

Estamos mesmo famintos e smeagollando - do verbo smeagollar, que quer dizer tornar-se Smeagoll. Meu, minha, meu, meu, minha, minha... Possuir é mesmo destrutivo. Há tanta fome por possuir, que se você materialmente nada possui, aniquilarão você para possuir seu ímpeto, sua cor, seu não-possuir-materialmente. 
E comerão meus olhos para verem como eu vejo, comerão minhas mãos para escrever como eu escrevo, comerão, comerão, comerão... Até nada sobrar. 

BASTA! Eu não sou seu alimento... 


Eu já não tenho fome. Estou farta. Cheia. Grande. A ponto de vomitar... Já sinto as náuseas, o gosto salgado da minha saliva. Ainda amarrada, com a boca com travas para se manter aberta, colocam posses que dizem ser minhas goela abaixo. Tento gritar, grunhir: - Não são minhas, não é, leve para você, coma-as. 
E lá vai mais posses goela abaixo. Posses que não quero. De tanto engolir o que não quero, o que não gosto, o que não quero possuir, começo a me tornar aquela imagem na sala de espelhos, aquela lá, a humana destrutiva. Agressiva. 

Se não me torno faminta - Smeagoll -, me torno algo pior, outro tipo de devoradora, não aquela que come, mas aquela que está farta e destrói o alimento, qualquer que seja.


Destruir é jovem e sereno. Destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade, reanima. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
Walter Benjamin
Eu vejo pessoas destruindo umas às outras. Vejo pessoas ao chão, em convulsão, sendo espancadas. Eu vejo e sinto a dor de quem não é adequada o bastante para estar aqui. Embora também não seja inadequada o suficiente para estar em outro lugar. 

Eu já não quero viver numa sociedade em que é preciso estar farta ou faminta, eu não quero fazer parte de um bando que não sabe o que quer dizer colaborar, proteger, compartilhar vivências, mas sabe muito bem o que é competir, dominar, destruir. 

Termino com uma prece, uma súplica, uma vontade visceral (essa sim, toda minha):

Que todo mundo vá se foder!