quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conto n. 14: Um tango em retrocesso


Ela estava tão linda quanto da última vez que eu a havia visto. Eram sete anos desde aquele último abraço na sala de estar. Eu estava a poucos passos de um novo abraço, eterno e fraterno abraço, como apenas ela sabia dar.
Ela estava em pé e eu podia ver seu sorriso em perfil. Passei a mão pela sua cintura, como velhos amigos que éramos, ela virou-se e com um olhar escandaloso de surpresa se jogou em meus braços, beijou minhas bochechas, apertou-me contra seu corpo dizendo o quanto sentia minha falta.
Eu respirava fundo, ela nunca saberia que a falta que eu sentia era muito maior, impossível de explicar através de qualquer expressão falada existente. Eu sentia falta de seu toque na minha pele, os fios dos meus cabelos pertenciam aos seus dedos - talvez por isso tenham caído tanto desde a nossa despedida.
E aquele foi o mais longo abraço que eu já havia recebido em toda a minha existência. Em seus braços eu me lembrei de tudo que vivemos, cada detalhe. Lembrei-me do que fez com quê eu me apaixonasse por ela. Platônica paixão!

Foi um dia de inverno, daqueles que o frio parece amolecer nossos corações. Éramos amigos há alguns anos, eu a admirava, mas não tínhamos intimidade. Naquele dia tudo mudou. Eu estava sentado no banco da praça, cabisbaixo e fumando minha droga, tentando esquecer. Ela sentou-se ao meu lado e quis saber o que havia acontecido. Eu comecei a chorar. Foi então que tudo aconteceu.
Ela não disse mais nada, levantou-me e de mãos dadas caminhamos até sua casa, em um confortável silêncio.
Confesso que fiquei apreensivo, mas ainda chorando, obedeci. Segui com ela. Ao chegar em sua casa, passamos pela sala, pelo corredor e fomos para seu quarto. Lá ela deitou-se comigo. Eu não entendia, achei que haveria sexo e eu não estava disposto a sexo naquele momento.
Ela deu um trago na minha droga, apagou o cigarro e me abraçou. Foi como se eu tivesse ido parar dentro dela em uma aconchegante concha. Seu rosto estava deitado sobre o meu, seu braço por cima do meu corpo, segurava-o com firmeza. Abraçado ao seu braço eu chorava, copiosamente chorava. Ela me apertava contra seu corpo e penteava meus cabelos com seus dedos.
Eu sentia cada pulsar do seu corpo tão unido ao meu. Seu coração batia em compasso como o meu. Sua respiração fazia minha pele vibrar. Vagarosamente meu coração foi se aquecendo e eu senti vontade de beijá-la, eu queria dizer que naquele momento ela havia se tornado a mulher da minha vida, o amor que eu buscava. Contudo, ela sabia suavemente se esquivar. Aplacar minha fúria e, como mágica, silenciar meu desejo. Ela sabia como provocar o meu amor sem fim. A minha obediência. O choro havia ido embora e as dores haviam passado. Éramos apenas eu e ela.
Quando já não havia choro, ela se levantou, se colocou diante de mim e olhou nos meus olhos. Aqueles olhos claros e maternos. Beijou meu rosto e me abraçou mais uma vez. Eu estava em paz, mas estava ferozmente apaixonado. A angústia havia passado, mas no lugar dela habitava um desejo violento.
E daquele dia até o dia de nossa despedida, nossa vida se tornou esse tango emocional, afetivo. Ela a me acolher com um carinho incondicional e eu procurando frestas que me possibilitassem tentar um único beijo. Ela se afastava. Eu a perseguia. Sua lealdade já pertencia a outro e eu já sabia, ela não o desapontaria.

Acordei da minha lembrança, ainda em seus braços com sua voz a me dizer ao pé do ouvido:
- Dança comigo mais uma vez, baby?

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