sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Vamos falar sobre estupro e depravação?


 Talvez meu pensamento ainda se mostre confuso, por isso, desde já peço desculpas a você. Se ainda está confuso é porque comecei a refletir sobre tudo isso da noite de ontem para hoje. 
O que aconteceu ontem a noite que fomentou minha reflexão? A televisão do quarto ligada enquanto eu escovava os dentes para dormir, apareceu Selton Melo na novela das 11 da rede globo, eu gosto de Selton Melo, fui prestar atenção na cena.

Ele adentrou o quarto de uma mocinha no tardar da noite para entregar uma carta de amor proibido. Ela na cama, sono pesado, ele revela o corpo dela tirando-lhe o cobertor de cima. Ele afaga seu rosto, ela acorda. Ele entrega a carta e cobra a resposta da anterior, ela não havia escrito, pois a mãe não havia se afastado dela durante o dia. Ele sugere que ela escreva naquele momento e se oferece para ajudar. Começa, então, a ditar a carta que vai ficando cada vez mais sensual. Ela de bruços na cama escrevendo, ele sentado na cama ao lado dela, ela empolgada e ele envia a mão por baixo de sua comprida camisola acariciando sua perna até alcançar seu “segredo”. Ela se assusta, se contrai e pede que ele saia. Ele diz sair apenas após um beijo. Ela dá um beijo rápido, ele quer mais, ela ameaça gritar, ele a coage. Ele diz que irá ensiná-la beijar e a beija. Pede que ela retribua e ela retribui. Ele a joga na cama, ela reage, lembrando que não era aquele o combinado, ameaça gritar mais uma vez, ele cobre sua boca e sugere que ela fique quieta. Até aqui já é um estupro. Não precisa mais.

____ *** ____

A Rede Globo divulgou a cena como um ato de sedução do galanteador personagem feito por Selton Melo. E eu afirmo e reafirmo: Não, não é sedução. E sim, se a rede globo insiste em chamar essa cena de sedução ela está fazendo apologia ao estupro. Não há mais o que dizer sobre isso.

Diante disso tudo, o que me veio a cabeça, que gerou a reflexão que culminou neste texto é que o personagem do Selton Melo, antes de acabar a novela, me pareceu estar descendo com sua cabeça até o “segredo” da mocinha. E se ele realiza nela sexo oral e se ela gosta? Mais! E se ela violentamente goza? Deixa de ser estupro?
Foi inevitável pensar sobre isso. E não pude pensar sobre isso sem pensar nos deslocamentos conceituais feitos pelas pessoas que querem continuar a deslegitimar o feminismo e fortalecer um sistema que há muito deveria ter falido.
O estupro, para ser estupro, supõe uma vítima e um agressor. E se criamos pares para explicar e classificar as coisas do mundo, temos duas caixinhas apenas para colocá-las. E na mesma caixinha da vítima, estão as pessoas boas, inocentes e que merecem nosso cuidado. Na caixinha do agressor estão as pessoas ruins, maliciosas e que só querem nosso mal. Cada caixinha na verdade é imensa e nela contém várias outras coisas, diga-se de passagem.
Mas se a mocinha que está sendo estuprada goza, se perverte, se deprava, se ela, a partir daquele ato violento, faz degenerar em si qualquer regra moral? Se isso ocorre, ela é transportada para a outra caixinha, a caixinha das pessoas ruins, a caixinha onde está o agressor. E, mais uma vez, estamos quites. Mais uma vez o estupro deixa de ser estupro, pois não há vítima, a vítima só existe se há dor, se há marcas da violência. Nada mais importa.
E continuamos a reproduzir o sistema de dominação em que essa forma de classificação irredutível nos aprisiona. Só é possível perceber que a perversão que surge durante o estupro não faz deste ato menos estupro, quando conseguimos flexibilizar essas classificações rígidas sobre como a vítima de um estupro deve ser, como uma pessoa estuprada deve reagir ou o que uma pessoa estuprada deve sentir.
O sentimento de violação, mínimo que seja, já deve configurar estupro. O fato de em algum momento daquela relação não ter a sua vontade atendida quando o assunto é o seu próprio corpo, já é estupro. Só não há estupro quando não há violação, quando os corpos se entendem em vontades consoantes.
A depravação no estupro não culpabiliza a vítima. É fácil dizer que foi consensual quando a vítima demonstrou algum prazer, é fácil fazer a vítima acreditar que foi consensual quando o corpo dela corrompeu o ato violento e fez dele gozo. É mais fácil ainda fazer isso tudo quando a vítima é uma mulher, pois se fosse um homem iriam dizer que ele sentiu prazer porque, “você sabe, né? Homem não resiste! Tem tesão demais. Quando vê já gozou”.




Não podemos perder de vista que essa mulher que nada sente e que quando sente é porque está confusa ou histérica, essa mulher que tem jornada tripla de trabalho e não tem tempo para pensar sobre si no mundo, essa mulher que vive nervosa cuidando do mundo, essa mulher moderna serve tão bem ao patriarcado quanto aquela bisavó que aos 12 anos de idade já sabia cozinhar, coser e bordar, se casou forçada com 14 anos (virgem), não se importava do marido ter mulheres na rua, pois ela era uma mulher de respeito, e aos 30 anos já tinha 12 filhos.

Não deixem que outras pessoas definam o que você sente. 

2 comentários:

  1. 1º - Gostei de vê-la por aqui. Sou fã incondicional de seus escritos.
    2º- Sobre o caso em questão, não há como discordar que houve estupro. Isto não é sensual.
    E, sim fica muito confuso separar uma coisa de outra, quando o estuprador é uma pessoa conhecida e mais difícil ainda se há algum tipo de relacionamento entre ambos.

    ResponderExcluir

Comentários moderados.