quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Conto n. 16: Na sala de parto, a Puta

Minha esposa começava a sentir as contrações com mais violência, começava a grunhir e chorar. No hospital aguardávamos a chegada da obstetra que a acompanhou no pré-natal. Minha esposa era uma fã da médica, ela era recomendadíssima por amigas, uma mulher afetuosa e humana. O nome da médica? Antonieta. 
Antonieta?! Como eu poderia adivinhar... Antonieta. 
Eu nunca havia visto Drª. Antonieta, não acompanhei minha esposa no pré-natal e a única vez que fui ao ultrassom, este não foi feito pela Doutora Antonieta. Na verdade, eu imaginava que a idolatrada médica fosse uma senhora, veterana em partos, quase uma avó. Não era! Eu estava chocado! Era a Puta!
Calma, calma! Vou explicar... Quando a doutora entrou no quarto eu fui jogado em um túnel do tempo, dez anos atrás. 


Eu estava animado aquele dia, eu tinha 19 anos e fui com a galera para o puteiro da cidade. Era um velho puteiro, com velhas putas, que nossos pais ainda frequentavam tentando manter o antigo clima de boêmia de nossa cidade, que já não era mais a mesma. 

Chegamos lá e nos divertíamos com as putas velhas dançando, nos abraçando, reconhecendo em nós nossos pais. 
- Esse filho do Juarez não saiu ao pai, a mãe deve ter regulado muito. Disse uma das putas, em gargalhadas, olhando para um amigo mais tímido sentado na beira do balcão. 
Eu queria explorar o lugar. Conhecer aquelas mulheres, ver suas tetas, sentir o cheiro daquela vida que desde sempre ouvi meu pai contar. 
Mas havia ali algo que não se encaixava no cenário. Havia uma puta mais jovem, com uns 25 ou 28 anos. Ela sentava no colo daquelas putas, gargalhava muito alto, estridente, e brincava com os velhotes que estavam por ali. Eles lhe davam tapas na bunda e diziam para ir para o quarto estudar, que no dia seguinte teria sua última prova. Ela ria mais alto ainda e dizia: - Essa prova já tá no papo, Zeca!

 Eu supus que era apenas um código, uma brincadeira com a puta. Fiquei observando-a, não era a mulher mais bonita que eu já havia visto, mas tinha uma liberdade fulminante. Sua longa saia amarela brilhava no meio daquelas luzes coloridas dentro do cabaré. Resolvi me aproximar, acreditei ser minha chance com uma puta, já que não me animava com uma puta velha. E perguntei: - Ei, puta! Cobra quanto? Ela me encarou e disse: - Não cobro não. Sem entender muito, dei de costas e comecei a sair. Ela me chamou: - Ei! Eu disse que não cobro, não que não faço.
Eu havia conseguido a puta e fomos para um quarto no andar de cima do puteiro. Quando chegamos à porta do quarto, ela me pediu para esperar, da porta eu vi quando ela tirou a colcha da cama e jogou sobre uma mesa com livros, cadernos e notebook, cobrindo-os.
Arrancou a blusa, ficou com as tetas de fora e sungou a saia deixando-a curtíssima. Mandou que eu entrasse e colocou um brega no cd-player. Começou a dançar, como uma havaiana e rindo para mim. Eram as tetas mais bonitas que eu já havia visto. Como balançavam de forma redonda e suave. 
Aproximei-me dela e coloquei a boca naquelas tetas, lambi toda aquela redondice. E as coxas? Coxas febris e lisas. Ela ria e se entregava ao meu toque. Eu não sabia onde tocar. O que tocar. Eu mordiscava, lambia, lambuzava todo o seu corpo. 

Foi quando fui surpreendido com ela enfiando a mão dentro da minha calça e puxando meu pau pra fora. Agarrada a ele, ela olhou pra mim e disse: - Coloca no meu cu?
Achei que meu coração iria sair do peito e que iria gozar ali mesmo, naquela hora. Enfiei a mão por baixo da saia e fui levando da buceta ao cu o melado escorregadio e quente, fazendo um movimento que a fazia arrepiar, causando atrito entre meu tato e suas coxas. 
Na excitação de estar fudendo uma puta de graça e ainda estar vivenciando aquelas delícias muito maiores que imaginei alcançar, perguntei: - Qual é seu nome?
- Puta! Ela falou.
- Fala, gostosa, como você chama? E coloquei meu dedo dentro do seu cu.
- Puta. Ela gemeu.
- Pode ser o nome de guerra, fala pra mim, no meu ouvido. E a virei de costas e abri sua bunda.
- PUTA! Ela gritou.
- Vou chupar seu cu, Puta!  E coloquei minha língua naquele cuzinho rosado. 

Ela gritava, como se ninguém pudesse nos ouvir. Eu coloquei meus dedos dentro da sua buceta e continuei a lambuzar seu cu. Como ela gritava. Quando eu senti que eu gozaria sem fuder o cu dela, encostei meu pau na entrada do cu e pedi gemendo. 
- Abre o cuzinho, Puta.
Ela engoliu meu pau, gozamos. Não demorou muito, ela saiu do quarto, sumiu. Rapidamente, fui surpreendido pelo leão de chácara do puteiro entrando no quarto e pedindo que eu saísse. Sorte minha que eu já estava com as calças. Nunca mais vi a Puta.
Fui embora com os amigos, contando o acontecido e fazendo zombaria: - A Puta quase não fica até o final!


Minha esposa gritou de dor e eu voltei do transe da lembrança. A Puta, quer dizer, Doutora Antonieta estava bem à minha frente. Segurando a mão da minha esposa, afagando sua testa e dizendo para ela se manter forte. Olhou para mim e disse, parecia que nunca havia me visto: - Você é o pai? Vai ficar aqui até o final?
Eu não conseguia responder. Estático. Em choque.
- CLÁUDIO!!  Gritou minha esposa.
- Até o final, vou sim, vou sim... 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Conto n. 15: Sonho quente em sépia



Ela voltou para a cidade. Fiquei sete anos vendo-a apenas pelas redes sociais. Seu sorriso, sua alegria, seus novos amigos, suas novas descobertas, suas conquistas. Eu a via e era uma tortura. Dois anos antes que ela fosse embora com aquele cara, nós dois havíamos começado aquele tipo de relação gostosa em que é proibido o compromisso. 
Éramos jovens e gostávamos das mesmas coisas, das mesmas bebidas, das mesmas músicas, dos mesmo lugares para curtir. Naquela época descobrimos que tínhamos mais em comum do que imaginávamos, nossos pais eram amigos de juventude e quando contei que havia conhecido a filha do Javali - o apelido que meu pai confidenciou em gargalhadas -, meu pai disse: "Se essa menina puxou ao pai, vai marcar a sua vida". Eu ri.  
Embora eu não soubesse, meu pai estava certo, e quando o nosso compromisso com não nos comprometer fez com que ela se fosse, comprometida com outro, eu chorei. 
Eu não poderia ficar sem ela. Não poderia perder aqueles dias deliciosos em que ela sempre trazia uma bebida esquisita na bolsa e eu, embriagado, lhe beijava a boca ao som do rock em nosso bar favorito. 
Depois dos amassos no bar, na madrugada, conversávamos pela net. Eu cantava para ela e ela cantava para mim, sua voz era desafinada e aguda, mas eu sentia tocar meu coração. Nunca cantou para mim pessoalmente, quando eu pedia ela corava, dizia que não tinha coragem, mas no último dia que nos beijamos, como se ela soubesse que encerraríamos ali (talvez soubesse), ela cantou em meu ouvido: 

"Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos

E eu nem sei que hora dizer
Me dá um medo ( que medo )

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É eu preciso dizer que eu te amo
Tanto"

Eu sinto o gosto do beijo que dei nela depois daquele verso até hoje. Achei que iria sufocar de tanto tesão, de tanto... amor? Apertei-a contra meu corpo e toquei sua buceta por cima da roupa.
Ela estava tão quente lá embaixo, tão quente, que quando eu coloquei minha mão dentro do seu jeans parecia que meus dedos queimavam, ardiam, sucumbiam àquele calor. 

Ela estava de volta! Era o que ela informava no facebook. E naquela noite eu dormi cedo com a lembrança daquele calor na minha mão e com o meu eterno ressentimento: nunca ter colocado meu pau naquela quentura. 


Dormindo, sonhei com ela. Deitados em um cama, ela lambia meu pescoço, subia em cima de mim e tirava minha blusa como se fosse minha dona. Seus cabelos ondulados presos em um alto rabo de cavalo. Eu tentava tirar sua roupa e ela apenas afastava minhas mãos. Ela tirou minha calça e me chupou. Eu gemia e tentava não precipitar meu gozo. 

Ela parou. Beijava meu peito e eu em desvario. Ela então sussurrou no meu ouvido: "de quatro, me come de quatro". Abaixou a calça e se posicionou na cama, quando eu tiraria sua calcinha, ela disse: "não tira, quero ela aí". Ah! Eu ficava louco! Que sonho! Que sonho! Antes de meter, eu afastei sua calcinha e chupei sua buceta faminto. Ela gemia, grunhia, gritava. 



Acordei. Não sei porquê. Meu pau latejava, duro. O relógio ainda marcava uma da madruga. Tomei um banho frio e rápido, fui para o bar, aquele bar onde tudo começou. Cheguei e pareceu-me uma visão, talvez eu ainda estivesse sonhando, era ela e parecia ter saído do meu sonho com aquele rabo de cavalo. Antes que eu me decidisse se iria até ela ou não, ela me avistou e veio em minha direção com aquele sorriso largo. Pressionou-me contra seu corpo e disse em meu ouvido: 
- Aceita continuar de onde paramos?

Pensei: - No sonho ou na vida?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Tributo antropofágico: Sobre pessoas famintas e pessoas fartas

Thomas Hobbes

Se me coloco a pensar nos dias que passaram, no hoje e nos que virão, já não quero mais habitar este mundo que tenho habitado. A cada dia que passa (deve ser a idade) perco-me da leveza e sinto-me cada vez mais próxima ao chão, áspero e doente. 
Parece que me encontro na sala dos espelhos. As imagens ali diante dos meus olhos são tortuosas, estranhas à mim, é um terror ver-me refletida como algo que não sou. Eu não sou essas outras pessoas que vivem ao meu redor, mas se estão ao meu redor, quão não-eu elas são de fato? Se foram essas as pessoas com quem aprendi - positiva ou negativamente -, se foram elas que passaram pela minha vida e tem passado, se eu sou do tipo que "atrai pessoas loucas" o que eu sou senão louca?
É ser Alice no pais das maravilhas a se considerar a única pessoa normal, correta, sã naquele mundo, mas se ela é a única (autoconsiderada) sã, o que ela é? Você já está louca, como todos os outros seres ali, não mantenha a ilusão.
Considerar-se deveras humana é um absurdo que não possui cabimento - não cabe, não encaixa, é excedente. Humanizar-se é tentar ser o que não se pode ser. Primatas do pior tipo. Essa tal capacidade de raciocinar é que nos causa defeito. Seres débeis. Somos seres famintos do possuir. Famintos do poder. Acumulantes. Apegados. Autodestrutivos. 
Não existimos sem disputas de minuto à minuto. Não são disputas diárias, não é um leão por dia, não, não, não. A cada novo encontro, nova disputa. Não temos tempo para catar piolhos na cabeça de outro primata. Nem para nos esticarmos soberanamente à mostrar nossas bolas ao público. 

Estamos mesmo famintos e smeagollando - do verbo smeagollar, que quer dizer tornar-se Smeagoll. Meu, minha, meu, meu, minha, minha... Possuir é mesmo destrutivo. Há tanta fome por possuir, que se você materialmente nada possui, aniquilarão você para possuir seu ímpeto, sua cor, seu não-possuir-materialmente. 
E comerão meus olhos para verem como eu vejo, comerão minhas mãos para escrever como eu escrevo, comerão, comerão, comerão... Até nada sobrar. 

BASTA! Eu não sou seu alimento... 


Eu já não tenho fome. Estou farta. Cheia. Grande. A ponto de vomitar... Já sinto as náuseas, o gosto salgado da minha saliva. Ainda amarrada, com a boca com travas para se manter aberta, colocam posses que dizem ser minhas goela abaixo. Tento gritar, grunhir: - Não são minhas, não é, leve para você, coma-as. 
E lá vai mais posses goela abaixo. Posses que não quero. De tanto engolir o que não quero, o que não gosto, o que não quero possuir, começo a me tornar aquela imagem na sala de espelhos, aquela lá, a humana destrutiva. Agressiva. 

Se não me torno faminta - Smeagoll -, me torno algo pior, outro tipo de devoradora, não aquela que come, mas aquela que está farta e destrói o alimento, qualquer que seja.


Destruir é jovem e sereno. Destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade, reanima. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
Walter Benjamin
Eu vejo pessoas destruindo umas às outras. Vejo pessoas ao chão, em convulsão, sendo espancadas. Eu vejo e sinto a dor de quem não é adequada o bastante para estar aqui. Embora também não seja inadequada o suficiente para estar em outro lugar. 

Eu já não quero viver numa sociedade em que é preciso estar farta ou faminta, eu não quero fazer parte de um bando que não sabe o que quer dizer colaborar, proteger, compartilhar vivências, mas sabe muito bem o que é competir, dominar, destruir. 

Termino com uma prece, uma súplica, uma vontade visceral (essa sim, toda minha):

Que todo mundo vá se foder!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Bobaaaaaaaaagi!!! O dia que a xoxota falou.

Para começar, eu gosto de chamar a vulva de xoxota, pois vagina é só o buraco, se é que você não sabe. A Wikipédia tem um verbete com foto e tudo mais, corre lá - Verbete Vulva


O assunto de hoje é sexualidade feminina e a danada da xoxota. Mais precisamente, a famigerada virgindade. Pensei nesse tema porque esses dias estou menstruada e no terceiro ciclo em que uso o coletor menstrual, que é uma coisa maravilhosa (eu usava absorvente interno antes, pois odiava o desconforto de usar absorvente, estar na rua e correr o risco de se sujar toda). Comparado ao absorvente interno, o coletor menstrual é algo que parece ter sido inventado no Olimpo. Pois você ainda sente a vagina úmida (como ela é normalmente, o absorvente interno me deixava com uma sensação de nariz ressecado pela baixa umidade do ar) e não tem vazamento algum (o absorvente interno ainda dava uma vazadinha se passasse um tempinho a mais com ele). E foca, são 12 horas de uso contínuo e é lindo quando você tira e vê que a menstruação que fazia aquela mega bagunça, não enche nem a metade do copinho. 
Enfim... Perdi um pouco o foco. Voltando aqui. Eu pensei no tema, porque eu pensei aqui comigo que se eu tiver uma filha um dia, vou super incentivá-la a usar o coletar menstrual desde sempre. Aí quando eu pensei nisso, ouvi logo os gritos morais do meu inconsciente povoado por patrulha social. 
- Mas a menina vai tirar a própria virgindade com um coletor menstrual. 
- Nossa! Que horror, vai desvirginar a menina por causa da menstruação.

E aí meu eu com ascendente em aquário tem uma convulsão social e diz:

- Sério!! Você acha que eu vou ensinar minha filha a preservar a xoxota para que outra pessoa a explore antes que ela mesma o faça?
- Minha feeeeelha!! Quando eu tinha uns 14 anos eu nem tinha beijado na boca eu já tinha tocado o dedo dentro da minha vagina. E sabe porque eu fiz isso, porque eu li numa revista de adolescente uma sexóloga falando que era bem provável que o primeiro sexo doesse, que quando o homem introduzisse o pênis poderia ser incomodo à princípio. E eu pensei: Se for pra doer, que eu controle essa dor. Não doeu nunca, nem quando eu mesma brinquei por ali e nem no primeiro sexo. 

Então, por que eu iria dizer para minha filha não tocar na sua própria xoxota, ou introduzir algo lá dentro? Por que é dada aos meninos a possibilidade de se tocarem, a romperem a sua "virgindade" com a própria mão e às meninas é negada essa possibilidade?

Vou explicar aqui rapidinho o por quê!

Virgindade e o casamento




Se você começar a estudar um pouco sobre a história dos costumes, a cultura, de alguns povos sobre o casamento, vai perceber que é comum encontrarmos descrições que falam sobre troca de mulheres, rapto de mulheres, dote ou qualquer outro arranjo em relação ao casamento em que são os homens que decidem pelas mulheres como se dará seu casamento. 
Vou apontar abaixo duas razões para que sejam os homens que façam esses arranjos, lógico que existem outras.

Herança/ hereditariedade


Uma coisa que todas as pessoas sabem é que se a mulher concebeu e gerou o bebê naturalmente, a criança é com certeza filha dela. Mas essa certeza não é dada ao homem, já que a única coisa que assegura à ele a progenitura da criança é a lealdade da mulher que a está gerando. Ou seja, o homem só garante o seu sangue, a continuação da sua substância, se ele garante a monogamia da mulher. Para ser mais grosseira, se ele garantir que a sexualidade da mulher pertença a ele e somente à ele. 

Vínculos entre famílias/tribos


Quer melhor maneira de unir famílias/tribos diferentes do que através do casamento? Unir famílias/tribos é uma prática muito comum, sobretudo quando a razão para a união é aumento de poder e domínio sobre riquezas ou territórios. Poder masculino, poder de guerra, a história não nos conta sobre mulheres conquistando impérios, mas homens. 

Se o homem amplia seu poder, mais ele precisará de um herdeiro, herdeiro desse seu poder, já que ele próprio, enquanto homem, é finito. A virgindade da mulher garante ao homem que ele tenha poder e que perpetue esse poder através dele mesmo em um herdeiro. 

Ter sido tocada antes do casamento faz com que a mulher perca seu valor - valor de troca - pois macula a hereditariedade do homem. Por isso, a mulher não-virgem se torna uma "mulher da vida", que pode ser tomada, é como uma moeda de um real caída no chão, ela não tem dono. A mulher sem virgindade também se torna alguém sem família, ter família é ter possibilidade de ser negociada pelos homens de sua família, que são os donos da família e fazem dela o que querem. 
[Por isso também, existem relatos de homens que abusam sexualmente das filhas e justificam dizem que elas a pertencem, então cabe à eles as "estreiarem"]. 


A virgindade nos moldes que a conhecemos ainda hoje não nos serve mais. Não deve nos servir. O hímen não tem valor algum nos seu corpo se você não quer ser moeda de troca em uma negociação entre honrados homens. Para quê preservá-lo? 
Vamos mudar o conceito de virgindade em nosso imaginário social. A virgindade feminina e masculina hoje, devem ser representadas pelo mesmo e único ato, o de praticar sexo com outra pessoa pela primeira vez. Deixar de ser virgem não pode ter um significado diferente para cada um dos sexos, significando para o homem a primeira relação sexual e para a mulher a dor de ter o hímen rompido. 

Masturbação dá prazer em todos os corpos e em qualquer período da vida, pratiquem!



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Põe mais açúcar: sobre não priorizar sexo

Se joga, garota!
Elas se casaram, tiveram bebês e o sexo sumiu. Breve e grosseiramente é esse o assunto da postagem de hoje. 
E o que uma mulher que não vivenciou tal situação tem a contribuir sobre isso? Talvez muito pouco ou nada, mas vou expor minha reflexão sobre isso.
Vou falar diretamente com as mulheres que vivenciam tal situação nesta postagem, mas você que não vivencia essa situação ou que é homem, fique! Será uma boa reflexão.
Para começar vou falar sobre minha concepção de casal e ao ler a minha concepção, considere pensar sobre qual é a sua concepção de casal e se ela está funcionando atualmente na sua relação com seu marido. Para mim, um casal deve manter diálogos longos, sou adepta de discussões longas e com exercício constante da paciência, porque eu também não gosto de DR - como alguns homens também alegam não gostar.
Então, é um assunto de cada vez, expurgando demônios externos que muitas vezes tumultuam nossa forma de relacionar com o nosso homem/marido/namorado/namorido (seja lá qual denominação você utilize). Devemos falar sobre nossas fraquezas, sobre o que nos deixa tristes e, até mesmo, dizer a ele que não o perdoa por algumas atitudes, mas que isso não lhe impede de continuar amando-o. Perdão é algo muito mais complexo do que supomos e aceitar que não perdoamos fará muito mais bem do que mal à relação, pois quando você acionar aquela situação que lhe magoou profundamente, mas você afirmou ter perdoado, não vai parecer que você está procurando briga, já que está usando razões que já são passado. Se a magoa ainda está no presente, comunique que ali ela ficará por um bom tempo, é melhor assim, pelo menos comigo anda funcionando.
E aí, você vai pensar sobre qual é a sua concepção de casal? Vai tentar ter aquela conversa longa com o seu homem/marido para formular uma concepção comum? Eu tentaria fazê-lo.

- Tá bom, mulherzinha!! O que tem isso a ver com o fato de que ele não me procura mais? Tem certeza que isso vai ajudar no que diz respeito à voltarmos a fazer sexo com mais frequência?

Sinceramente, não sei! Talvez não ajude, pois talvez não tenha sido só o sexo que vocês perderam, mas tenham perdido aqueles diálogos longos que vocês tinham na cama, quando ainda eram só vocês dois. Contudo, se vocês nunca tiveram isso, eu não conseguirei falar com você sobre esse assunto, pois não considero possível um casal existir sem diálogo.

Recuperem (ou iniciem) os longos diálogos primeiro.

Make, make, make love!  Algumas hipóteses possíveis

Sobre a falta de sexo atual, eu tenho algumas hipóteses (que sei, não são as únicas possíveis).
Vamos a elas:



1. Você começou a se sentir um tanto quanto cansada quando começou a vivenciar a rotina de casada - trabalho remunerado, trabalho doméstico e trabalho emocional para cuidar de tudo. Sentindo-se cansada de uma maneira que nunca havia sentido antes de ser casada, você começou a dispensar o sexo frequente, pois a prioridade era dormir, não o sexo. Iniciou-se um processo de frustração, pois você começou a perceber que seu marido não sabia como ser marido, ele sabia como ser filho e você foi se adaptando às demandas dele, pois o ama. E se tornou uma mãe sobrecarregada, pois além de cuidar do marido como de um filho, cuidava da casa e do bebê que chegou. O sexo tornou-se cada vez menos sua prioridade. Diante de tantas negativas, seu marido aquietou-se, quem sabe numa tentativa de respeitar suas negativas.



2. Depois do casamento seu marido achou que tinha adquirido uma máquina de sexo. Começou a lhe cutucar nos horários mais estranhos possíveis. Ora você lá dormindo o terceiro sono, sono profundo e o amor da sua vida acordando você com a piroca dura lhe roçando. Ora você acabando de acordar pela manhã e o amigão já ereto, querendo um sexo matinal antes de partir para o trabalho. Ora você na beira do fogão, fazendo uma comidinha e a pomba rola querendo fazer cena de filme do telecine action.  Pode ser que uma ou duas vezes você cedeu, ou por receio de negar ou porque se excitou também. Porém, depois você começou a negar, ou por não ter prazer com aquilo, ou por considerar que não é um tipo de sexo que você queira ter como rotina. Como na hipótese anterior, várias negativas levaram à um homem quieto.



3. Ele começou a se sentir sobrecarregado com a função de marido e pai, pois o sistema patriarcal educou nossos homens para serem provedores e bem-sucedidos como machos da casa. O surgimento da criança pode ampliar essa ânsia por prover a casa. Então, como você na hipótese um, seu marido está priorizando descansar no lugar do sexo. Ou seja, ele vai tentar dormir bem para conseguir trabalhar bem no próximo dia.



4. Acabou o tesão e o interesse sexual dele em você, porém ele é tão conservador que não tem capacidade de admitir que vocês devem se separar por causa disso. Daqui uns dias estarão utilizando uma frase que eu já ouvi várias vezes de pessoas casadas da família: "sexo não é importante no casamento, importante mesmo é cuidar da nossa família".  

Colocando açúcar

A primeira coisa que eu tenho à dizer sobre tudo isso é: FALEM SOBRE ISSO.

Falar sobre isso não é fazer uma ceninha com as seguintes frases: "você não me procura mais!" (lágrimas) ou "você deve estar com outra mulher, pois não me procura mais" e o que mais sua criatividade possa inventar para falar sobre esse assunto.

Pense comigo, eu limitei as razões em quatro hipóteses e essas quatro hipóteses demandam enfrentamento. Já que não é possível quebrar uma barreira que foi colocada de forma habitual por motivos que talvez já tenham ficado no passado, mas o hábito formatado fica. Lembra daquele ditado "o uso do cachimbo coloca a boca torta"? Pois bem, talvez o cachimbo nunca mais seja utilizado (ou as razões de negativa já não existam mais, depois de um longo período de adaptação à vida de casada), mas a boca já ficou torta (vocês pararam de fazer sexo com frequência).

Que tal desentortar essa boca?

Então PROCURE, moillherrrrr!!!!

(E cá pra nós, esse trem de "não me procura" é muito dona de 60 anos, num é não?! Pára com isso! Mulher não tem que ser procurada, você não é presa esperando predador. Um casal não pode se manter com orgulhos arcaicos).

Voltem a namorar. Faça um memorial mental do namoro de vocês. Como eram os carinhos, os beijos, os afagos, a transa. Exercite o namorar. Se vocês estão casados, eu suponho que conheçam minimamente o que excita um ao outro.
Uma relação é feita de forma colaborativa, se você estiver aberta para conversar sobre o assunto, diga que acha que no período de adaptação à vida de casados vocês começaram a se cansar mais do que o habitual, por causa da rotina de "gente grande" e que o sexo foi deixando de ser prioridade, mas que agora você está sentindo falta de vocês dois como namorados que são. [Eu quero SEEEXXOOOO! Me dá SEEXXXO! Como eu fico sem sexo?!]  O cansaço ainda está presente, mas ele se tornou tão rotineiro que ele escapa ao cotidiano. E é quando as coisas começam a escapar ao cotidiano que são evidenciados alguns vazios, a falta de sexo entre o casal é um vazio que ficou grandão quando a rotina da vida de casados já não é mais um fardo.

E lembre-se... Não há culpa, nem em você e nem nele em nenhuma das hipóteses. Culpada ou culpado irá existir se você não tomar a iniciativa de esclarecer as coisas - já que você pode ter sentido primeiro esse vazio - ou ele se negar a falar sobre o assunto. 
Reflita sobre outro ponto: se ele não "sente" a falta de sexo como você, talvez seja porque os homens estão adaptados com o prazer gerado pela masturbação muito mais do que algumas mulheres, se você não se masturba vai sentir falta de sexo de uma maneira muito mais dramática do que alguém que se masturba e goza consigo mesma satisfatoriamente.

Entretanto, contudo, todavia... Se o seu caso é a hipótese 4, é melhor sair fora. Casal sem prazer sexual não é coisa de deus não. HiHiHiHiHi...

Espero ter provocado vocês um tiquinho...

ps.: Reitero que eu nunca vivenciei essa experiência, estou apenas elucubrando sobre o assunto, não criando um manifesto da verdade. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conto n. 14: Um tango em retrocesso


Ela estava tão linda quanto da última vez que eu a havia visto. Eram sete anos desde aquele último abraço na sala de estar. Eu estava a poucos passos de um novo abraço, eterno e fraterno abraço, como apenas ela sabia dar.
Ela estava em pé e eu podia ver seu sorriso em perfil. Passei a mão pela sua cintura, como velhos amigos que éramos, ela virou-se e com um olhar escandaloso de surpresa se jogou em meus braços, beijou minhas bochechas, apertou-me contra seu corpo dizendo o quanto sentia minha falta.
Eu respirava fundo, ela nunca saberia que a falta que eu sentia era muito maior, impossível de explicar através de qualquer expressão falada existente. Eu sentia falta de seu toque na minha pele, os fios dos meus cabelos pertenciam aos seus dedos - talvez por isso tenham caído tanto desde a nossa despedida.
E aquele foi o mais longo abraço que eu já havia recebido em toda a minha existência. Em seus braços eu me lembrei de tudo que vivemos, cada detalhe. Lembrei-me do que fez com quê eu me apaixonasse por ela. Platônica paixão!

Foi um dia de inverno, daqueles que o frio parece amolecer nossos corações. Éramos amigos há alguns anos, eu a admirava, mas não tínhamos intimidade. Naquele dia tudo mudou. Eu estava sentado no banco da praça, cabisbaixo e fumando minha droga, tentando esquecer. Ela sentou-se ao meu lado e quis saber o que havia acontecido. Eu comecei a chorar. Foi então que tudo aconteceu.
Ela não disse mais nada, levantou-me e de mãos dadas caminhamos até sua casa, em um confortável silêncio.
Confesso que fiquei apreensivo, mas ainda chorando, obedeci. Segui com ela. Ao chegar em sua casa, passamos pela sala, pelo corredor e fomos para seu quarto. Lá ela deitou-se comigo. Eu não entendia, achei que haveria sexo e eu não estava disposto a sexo naquele momento.
Ela deu um trago na minha droga, apagou o cigarro e me abraçou. Foi como se eu tivesse ido parar dentro dela em uma aconchegante concha. Seu rosto estava deitado sobre o meu, seu braço por cima do meu corpo, segurava-o com firmeza. Abraçado ao seu braço eu chorava, copiosamente chorava. Ela me apertava contra seu corpo e penteava meus cabelos com seus dedos.
Eu sentia cada pulsar do seu corpo tão unido ao meu. Seu coração batia em compasso como o meu. Sua respiração fazia minha pele vibrar. Vagarosamente meu coração foi se aquecendo e eu senti vontade de beijá-la, eu queria dizer que naquele momento ela havia se tornado a mulher da minha vida, o amor que eu buscava. Contudo, ela sabia suavemente se esquivar. Aplacar minha fúria e, como mágica, silenciar meu desejo. Ela sabia como provocar o meu amor sem fim. A minha obediência. O choro havia ido embora e as dores haviam passado. Éramos apenas eu e ela.
Quando já não havia choro, ela se levantou, se colocou diante de mim e olhou nos meus olhos. Aqueles olhos claros e maternos. Beijou meu rosto e me abraçou mais uma vez. Eu estava em paz, mas estava ferozmente apaixonado. A angústia havia passado, mas no lugar dela habitava um desejo violento.
E daquele dia até o dia de nossa despedida, nossa vida se tornou esse tango emocional, afetivo. Ela a me acolher com um carinho incondicional e eu procurando frestas que me possibilitassem tentar um único beijo. Ela se afastava. Eu a perseguia. Sua lealdade já pertencia a outro e eu já sabia, ela não o desapontaria.

Acordei da minha lembrança, ainda em seus braços com sua voz a me dizer ao pé do ouvido:
- Dança comigo mais uma vez, baby?

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Parecia uma feminista, mas era só uma bruxa.

Divulgação do filme: Elvira, a rainha das trevas (1988)

Não é minha intenção começar esse vídeo me explicando, mas eu tenho que dizer que eu era uma criança e assistia a Elvira na sessão da tarde, logo eu não sou uma adulta muito equilibrada. Minha inconstância, desequilíbrio e, até mesmo, fixação com planos/ideias que estavam claramente fadadas ao fracasso já me deixaram um tanto quanto insatisfeita comigo mesma, contudo hoje eu me importo menos do que já me importei com essas minhas características malucóides.
Daí que você pode não estar entendendo nadica de nada, mas eu vou começar esse texto assim mesmo, para que vocês saibam que eu sei que eu mudei.
(Beba água em um rio, volte em um ano e beba água no mesmo rio. Contudo saiba, o rio já não é o mesmo e nem você é mesmo! - Já diria o filósofo Patropi ou seria... era um filósofo.)
Entonces... O rio já correu um bocado e eu já andei um bocado por aí. E esse bloguizinho bunitinho aqui, agora é um blog de muié conversadeira e feminista.
Vai ter safadeza quando tiver que ter, vai ter rebelião quando tiver que ter e ainda vai ter o muro das lamentações (eu não sou de ferro, né?!).
Eu já falei por aqui, tenho quase certeza, que eu não era "feminista", mas eu era anti-sexista.(Dãããã...)  E com isso eu queria dizer que eu não estava em luta constante com os homenzinhos heterossexuais e/ou com pessoas machistas.
Eu fazia uma leitura errada sobre o que era ser feminista e, por isso, não queria ser. Porque eu não queria ficar brigando com os homenzinhos heterossexuais e nem com pessoas machistas.
- O quêêêêê? Tá falando que é feminista, mas não briga com machistas???
Brigo não, porque eu já não tenho paciência para brigar hoje em dia. Já estou um tanto madura (hastagVelha), minha energia é pouca e quando eu sinto cheiro de briga, eu sinto lágrimas arderem em meus olhos e cheiro de sangue, pois é um misto de "se continuar eu mato!" com "sou serumanazinha demais para matar alguém". Então faço opção por não brigar, mas tento conversar com as pessoas até onde vai o meu limite ou o limite delas.


https://drive.google.com/file/d/0B-WwPW--XJ0mNG1qQjNXLUN3ZWM/view
Clica na imagem, queridoan!!

Hoje eu já entendo que ser feminista não é ser a louca que quer cortar todas as picas e jogar numa fogueira, ser feminista é só dizer: "êêêÊÊÊÊPPPaaaaaaaaaa! Dá cá o que eu tenho direito!"
E além de entender tal afirmativa, entendi também que existem vários feminismos e eu não preciso me identificar com todos eles (devo indiscutivelmente respeitar cada um deles), pois a minha trajetória tem especificidades que talvez não caibam em todos os feminismos possíveis e existentes. [Clica na imagem ao lado que tem um link para um documento com definições breves de diferentes tipos de feminismos].
Minha luta não é contra o falo (simbólico e físico), minha luta é contra o Estado e sua mania de reforçar e reproduzir condições específicas da vida em sociedade que afetam negativamente e diretamente as mulheres e quem mais seja identificado com o gênero feminino.
Quais condições específicas são essas?
- Permitir que religiões que tem um histórico de opressão das mulheres influenciem na forma como determinadas temáticas são disciplinadas pela legislação nacional.
- Não criar mecanismos jurídicos/administrativos que assegurem a dignidade da mulher. Quando digo dignidade eu não quero dizer a "dignidade da mulher" estereotipada e representada pela virgindade, pelo recato, pudor, domesticidade e silêncio. Falo de dignidade como valor humano, igualdade e respeito.

"Feminina sim, feminista jamais!": Pelamor!!!!


- Ei molierrrrres!!! Tão malucas, felhas?!
Eu passo mal quando eu vejo esse tipo de afirmação, sim! Me desculpem meninas que acham que essa afirmação é válida e me desculpem também meninas que acham que eu não deveria pedir desculpas paras as meninas que acham essa afirmação válida!  Ah!! PáPorra, vou pedir desculpa porra nenhuma!! Cês são livres e a porta da rua é serventia da casa! (Baixou a loka!)

Voltando aqui! Prestenção... Feminista não é antônimo de feminina (lembra da aula da segunda série? Alto/baixo, cheio/vazio). Mas se você queria que fossem sinônimos, olha o cheirinho de frustração no ar, não são. Entretanto, apesar de não serem sinônimos não quer dizer que não possam ficar juntinhas, tomar umas biritas e até dar uns pegas uma na outra. Ser feminista e feminina é uma possibilidade real. Você não precisa ser pessoa com machezas para ser feminista, basta que você não se cale quando sentir que está sendo injustiçada por ser mulher, especificamente.
Por exemplo, quando alguém tenta lhe proibir de usar aquele vestido com um decote maravilhoso, porque se você usá-lo vai parecer que você é uma mulherzinha qualquer. Isso aí é injusto, pois a roupa que você veste não define quem você é como pessoa. Estar sexy é um direito seu, um direito sobre o seu próprio corpo.

Então não pira, mina! Seja feminina ou não seja feminina, porém  faça escândalo sempre que alguém disser que você não deve, não consegue, não pode, está proibida de ser ou fazer seja lá o que for.

Saiba, menina! Você não é obrigada a ser feminista e nunca será. Pois estaremos sempre lutando para que você não seja obrigada a NADA. É para isso que o feminismo existe.

Seja livre! Seja louca! Seja recatada! Seja cristã! Seja vadia! Seja solteira! Seja poliamor! Seja erótica! Seja pudica! Seja caseira! Seja baladeira! Seja tudo o que você quiser!
Mas por fim, não seja apenas um rótulo, seja capaz de se repensar, de ler o outro na sua essência e respeitar a trajetória da outra pessoa. Aprenda a ler vivências! Aprenda a respeitá-las!
Comece pela sua própria trajetória. Compreenda suas próprias experiências. Quem sabe assim você encontra uma pessoa poderosa aí dentro que queira sair e se juntar à luta pelos nossos direitos.

Seja ciborgue, não se apegue à deusa dentro de você.
Melhore você mesmoan!


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Vamos falar sobre estupro e depravação?


 Talvez meu pensamento ainda se mostre confuso, por isso, desde já peço desculpas a você. Se ainda está confuso é porque comecei a refletir sobre tudo isso da noite de ontem para hoje. 
O que aconteceu ontem a noite que fomentou minha reflexão? A televisão do quarto ligada enquanto eu escovava os dentes para dormir, apareceu Selton Melo na novela das 11 da rede globo, eu gosto de Selton Melo, fui prestar atenção na cena.

Ele adentrou o quarto de uma mocinha no tardar da noite para entregar uma carta de amor proibido. Ela na cama, sono pesado, ele revela o corpo dela tirando-lhe o cobertor de cima. Ele afaga seu rosto, ela acorda. Ele entrega a carta e cobra a resposta da anterior, ela não havia escrito, pois a mãe não havia se afastado dela durante o dia. Ele sugere que ela escreva naquele momento e se oferece para ajudar. Começa, então, a ditar a carta que vai ficando cada vez mais sensual. Ela de bruços na cama escrevendo, ele sentado na cama ao lado dela, ela empolgada e ele envia a mão por baixo de sua comprida camisola acariciando sua perna até alcançar seu “segredo”. Ela se assusta, se contrai e pede que ele saia. Ele diz sair apenas após um beijo. Ela dá um beijo rápido, ele quer mais, ela ameaça gritar, ele a coage. Ele diz que irá ensiná-la beijar e a beija. Pede que ela retribua e ela retribui. Ele a joga na cama, ela reage, lembrando que não era aquele o combinado, ameaça gritar mais uma vez, ele cobre sua boca e sugere que ela fique quieta. Até aqui já é um estupro. Não precisa mais.

____ *** ____

A Rede Globo divulgou a cena como um ato de sedução do galanteador personagem feito por Selton Melo. E eu afirmo e reafirmo: Não, não é sedução. E sim, se a rede globo insiste em chamar essa cena de sedução ela está fazendo apologia ao estupro. Não há mais o que dizer sobre isso.

Diante disso tudo, o que me veio a cabeça, que gerou a reflexão que culminou neste texto é que o personagem do Selton Melo, antes de acabar a novela, me pareceu estar descendo com sua cabeça até o “segredo” da mocinha. E se ele realiza nela sexo oral e se ela gosta? Mais! E se ela violentamente goza? Deixa de ser estupro?
Foi inevitável pensar sobre isso. E não pude pensar sobre isso sem pensar nos deslocamentos conceituais feitos pelas pessoas que querem continuar a deslegitimar o feminismo e fortalecer um sistema que há muito deveria ter falido.
O estupro, para ser estupro, supõe uma vítima e um agressor. E se criamos pares para explicar e classificar as coisas do mundo, temos duas caixinhas apenas para colocá-las. E na mesma caixinha da vítima, estão as pessoas boas, inocentes e que merecem nosso cuidado. Na caixinha do agressor estão as pessoas ruins, maliciosas e que só querem nosso mal. Cada caixinha na verdade é imensa e nela contém várias outras coisas, diga-se de passagem.
Mas se a mocinha que está sendo estuprada goza, se perverte, se deprava, se ela, a partir daquele ato violento, faz degenerar em si qualquer regra moral? Se isso ocorre, ela é transportada para a outra caixinha, a caixinha das pessoas ruins, a caixinha onde está o agressor. E, mais uma vez, estamos quites. Mais uma vez o estupro deixa de ser estupro, pois não há vítima, a vítima só existe se há dor, se há marcas da violência. Nada mais importa.
E continuamos a reproduzir o sistema de dominação em que essa forma de classificação irredutível nos aprisiona. Só é possível perceber que a perversão que surge durante o estupro não faz deste ato menos estupro, quando conseguimos flexibilizar essas classificações rígidas sobre como a vítima de um estupro deve ser, como uma pessoa estuprada deve reagir ou o que uma pessoa estuprada deve sentir.
O sentimento de violação, mínimo que seja, já deve configurar estupro. O fato de em algum momento daquela relação não ter a sua vontade atendida quando o assunto é o seu próprio corpo, já é estupro. Só não há estupro quando não há violação, quando os corpos se entendem em vontades consoantes.
A depravação no estupro não culpabiliza a vítima. É fácil dizer que foi consensual quando a vítima demonstrou algum prazer, é fácil fazer a vítima acreditar que foi consensual quando o corpo dela corrompeu o ato violento e fez dele gozo. É mais fácil ainda fazer isso tudo quando a vítima é uma mulher, pois se fosse um homem iriam dizer que ele sentiu prazer porque, “você sabe, né? Homem não resiste! Tem tesão demais. Quando vê já gozou”.




Não podemos perder de vista que essa mulher que nada sente e que quando sente é porque está confusa ou histérica, essa mulher que tem jornada tripla de trabalho e não tem tempo para pensar sobre si no mundo, essa mulher que vive nervosa cuidando do mundo, essa mulher moderna serve tão bem ao patriarcado quanto aquela bisavó que aos 12 anos de idade já sabia cozinhar, coser e bordar, se casou forçada com 14 anos (virgem), não se importava do marido ter mulheres na rua, pois ela era uma mulher de respeito, e aos 30 anos já tinha 12 filhos.

Não deixem que outras pessoas definam o que você sente.