sexta-feira, 6 de novembro de 2015

“Mulheres, para ser livre basta querer”: Será?


Ser livre, vivendo em sociedade, para as mulheres (guardadas as devidas proporções relativas) no nosso país, no nosso estado, na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa vizinhança, será a guerra mais violenta e sangrenta de todos os tempos. A violência não é daquelas que sonham com a liberdade, mas daquelas pessoas que não permitirão que essa liberdade aconteça. Já o sangue, o sangue é NOSSO. 
Vou explicar melhor. Eu, uma mulher fictícia, represento qualquer outra. Eu resolvo viver minha vida, na minha casa, no meu sossego, solteira, trabalhando, pagando minhas contas e meus impostos. Quero ser livre, me livrar da dominação da família que quer determinar quem eu devo ser, como eu devo ser. Quero me livrar da dependência econômica de outras pessoas que me sujeitam a explicações e justificativas sobre o que faço. Quero ser livre. E dirão: “Qual é o problema nisso? Isso é ótimo, você é a mulher moderna, seja! ”
Então, espera aí... Calma aí, pois tem mais um pouco.
 A liberdade que quero não se limita a isso, a liberdade que quero envolve minha sexualidade. É sobre ser livre também no sexo. Fazer sexo quando eu quiser.
E dirão: “Está louca? Para que isso, moça? Mas você não precisa disso para ser livre”.
Esse “disso” que eu não preciso vem com uma carga de “é vulgar, é vil, é sujo, seja superior”. Mas eu, eu não quero ser superior, eu quero ser LIVRE.
E dirão: “Então vai lá! Lavo minhas mãos!”
E as mãos lavadas são as mãos que não farão nada quando eu, querendo vivenciar minha sexualidade, for estuprada. Serei violentamente espancada, pois resolvi que não estava disponível sexualmente para um cara qualquer.
É no sexo que esbarra a minha liberdade. É nas minhas experiências sexuais que esbarram o seu apoio e acolhida.
E dirão: “Mas também, aquela vida desregrada que ela levava, só poderia dar nisso!”
Não, não precisava dar nisso. Eu poderia ser livre. E você poderia respeitar minha liberdade e respeitar o meu limite do querer.
E se eu, solteira, encontrar um cara com quem eu queria fazer sexo, que seja uma pessoa agradável e que me dê prazer? E se eu engravidar desse cara, porque a camisinha simplesmente rompeu e nós não percebemos, mesmo depois do final do sexo? E se eu perceber com oito semanas de gravidez? E se eu não quiser ser mãe? E se eu quiser interromper a gravidez?

Dirão: “Quem mandou fazer sexo, agora você irá assumir. É consequência das suas atitudes”.
Mas e se esse cara bacana quando sair da minha casa bêbado, mesmo com todas as minhas advertências e até com o convite para dormir, se acidentar? Se ele fraturar levemente a coluna, se ele perder os movimentos das pernas? Dirão: “Não é tão grave, é reversível, façamos o tratamento necessário”.
E se eu dissesse: “Não, ele saiu bêbado, eu avisei que algo poderia acontecer, não façam o tratamento, ele tem que ficar na cadeira de rodas pelo resto da vida. É consequência das atitudes dele”?
E dirão: “Nossa! Que ruindade, foi um deslize, ele não merece esse fardo por um deslize!”.
Sim, eu estou dizendo que a gravidez é um fardo. Sim, eu estou dizendo que uma criança é um fardo.

Algumas escolhem conscientemente e muito felizes (outras menos) carregar esse fardo (Eu, Cassianne, quero carregar esse fardo). Porém, o fato de algumas escolherem carregar esse fardo não obriga a todas o carregarem.
E volto a dizer, eu, Cassianne. Não o Eu fictício acima. As campanhas a favor da descriminalização do aborto e para incluir a interrupção da gestação com até 3 meses no sistema de saúde do Brasil não diz respeito a você que não quer interromper a gravidez. Não diz respeito à sua religião. Não diz respeito ao que você, pró-vida, pensa. Diz respeito a poder escolher ser tratada depois que ocorreu algo no corpo de uma mulher que ela não gostou, que lhe afetou e afetará se não for tratado. Diz respeito aos deveres do Estado para com suas cidadãs.

E se você, pró-vida, não gosta da ideia do Estado dar essa possibilidade às mulheres, vá para a porta das clínicas que farão o procedimento e acolha essa mulher, converse com ela, dê a ela alguma alternativa que valha a pena. MAS NÃO DIGA AO ESTADO PARA AGIR COMO UMA IGREJA.

NÓS RESISTIREMOS...

A criança sem corpo



É muito comum ouvirmos afirmações como: “ela nem tem corpo ainda” ou “o corpo já apareceu”, quando se trata, principalmente, das mudanças corporais nos corpos de meninas. Essas mudanças acontecem principalmente por causa da puberdade, mas enquanto a puberdade não chega, parece que nós insistimos em invisibilizar as meninas e a existência de seus corpos. Ser criança parece ser sinônimo de pessoa que corpo ainda não tem. 
A corporalidade infantil – de quem pode ter infância – é constantemente evidenciada como algo frágil e incompleto. E você poderia me dizer, mas é isso que o corpo da criança é, é algo frágil e incompleto. Então eu lhe responderia, completude e força se mede a partir de onde para você? A criança é sim, completa, enquanto criança. Ela possui um corpo e nele sexualidade¹. A força do corpo da criança está justamente em sua flexibilidade e adaptabilidade, já viu o que uma criança pode fazer com seu corpo nos primeiros anos de sua vida? Nós adultos que vamos nos tornando cada vez mais frágeis e nossos corpos perdendo o que antes tinham, tornam-se incompletos.
Entretanto, quando nos deparamos com uma criança sendo retratada estritamente a partir da beleza de seus corpos não há como fugir de um certo desconforto, desconforto esse formatado por uma concepção moral que interdita o corpo da criança. O interdita ainda mais se ele corre o risco de pedofilia.




Os casos polêmicos entorno da Revista Vogue Kids e de uma certa propaganda da marca de roupas infantis Lilica Ripilica são um exemplo claro sobre esse fato.
Há um tempo atrás, uma foto de uma criança me causou certo desconforto justamente por trazer à tona esses aspectos. A modelo infantil Kristina Pimenova, de oito anos de idade, estava sendo veiculada nos meios de comunicação como a menina mais bonita do mundo. A beleza da menina russa realmente é um fato, mas como a exploração dessa beleza nos toca? Será que a intenção pueril da criança que posa para foto transcende a interpretação de quem vê a imagem? Não tenho pretensão aqui de apontar caminhos ou respostas para esse assunto que tanto pode render conflitos internos e, até mesmo, externos. O que pretendo expor é a minha experiência pessoal – e intransferível – referente ao meu olhar sobre essas fotos.




Ao ver essas fotos acima, infelizmente, faço uma conexão com outras imagens que já circularam pela minha cabeça. Meu cérebro parece ver tal imagem e acessar em minha memória imagens que remetem uma sensualidade de mulher, com corpo. Então o corpo da Kristina fica evidente, ela passa a ter corpo e o corpo dela me incomoda profundamente, já que uma criança de oito anos não deveria tê-lo. O tipo de imagem que eu acesso é como essa abaixo, da Scarlett Johansson, atriz norte americana.

Talvez porque na minha memória eu tenha registrado várias vezes imagens de mulheres, em várias revistas e outras fontes de divulgação, sentadas ao chão, fazendo carão, nos olhando fixamente nos olhos, com poses que destacassem suas pernas e evidenciassem uma sensualidade pulsante. As fotos da menina Kristina, assim como a foto da Scarlett, vemos olhos fixos na lente – olhando quem olha – e pernas que saltam despidas em uma pose minuciosamente desproposital, de quem apenas sentou-se no chão e recolheu as pernas. A imagem da mulher sensual é colada à imagem da menina, não faz diferença de quem posa, a pose é a mesma, o foco é o mesmo e, se a foto da Scarlett pode despertar uma atração sensual, a foto da menina deve ser olhada com a pureza de quem apenas está sentada no chão, pronta para brincar com as amiguinhas.
Mas peraí...
E se revertermos o jogo. Se começarmos a nos lembrar que mulheres por muito tempo foram retratadas como menininhas pueris para despertar essa atração sensual que a fragilidade feminina é capaz de provocar. Então seria a pose de Scarlett a pose segunda, a pose que imita a pose cotidiana de uma criança sem corpo relocada em uma mulher com corpo. E nesse frenesi do mundo, em que substituímos significados e esquecemos origens, a imagem da mulher ao chão, sensual, embora pueril toma conta de nosso imaginário e nos faz reverter nossas compreensões e atormentar nossas emoções.
Por fim, entre turbulências significantes e realinhamento de emoções experienciadas em mim, o que ainda desejo e que as fotos das meninas sejam mais como essa:




Nota:
(¹ Para tanto você pode consultar Sigmund Freud, por exemplo, em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.