sábado, 23 de março de 2013

Conto n. 11 – Se são antropólogos, que me fodam!

 

468179-As-cortinas-de-discos-de-vinil-são-lindas-e-muito-fáceis-de-serem-feitas.-Otimas-para-decoraçaõ-da-sala.

Eu estava naquele bar, um famoso bar da cidade que reunia todos os tipos de cults, newhippies, intelectuais fracassados… Eu não me encontrava em nenhum desses rótulos, mas eu gostava do bar, ele ficava perto de uma universidade pública e a cerveja era barata. E eu, no final das contas, gostava de observar a masturbação político-intelectual daquele tipo de Intelligentsia que frequentava o espaço.

Aquele dia foi um pouquinho diferente, havia um suposto casal na mesa à minha frente. Eles gesticulavam, falavam sobre suas dores, seus problemas e suas angústias… epistemológicas. Hermenêuticas. Dialéticas. Confusão. Gritaria. Era dor que não se acabava e eram gestos que não se findavam. Eram antropólogos, um fazia estudos EM África e a outra fazia estudos com os famigerados indígenas. Estavam em vias de terminar o doutorado em antropologia social em uma universidade pública com o programa de pós graduação nota 7.  Se tornariam, por sua conta e risco, doutores.

- Ô, Glória!  Temos bolsas de pesquisa…

Esse era o mantra que poderia ser ouvido. Nesse dia eu os conheci, os vi, deles eu gostei. Eles eram bonitos, havia algo de sexy (mesmo que seja difícil de acreditar que Intelligentsia possa ter sexy appeal), aconteceu um convite, sentei a mesa. Eu os mirava, buscava entender de onde viria tanta angústia. Aquelas dúvidas existenciais não iriam se dissolver, nem as deles, nem as minhas. Restou-nos uma má proposta, libidinosa proposta, terrível e amoral proposta: um antropológico ménage à trois. Antropólogos tinham fama de se aventurarem. Embarquei nesse barco viking acreditando ser mais um monge raptado.

Mr G. Bateson, Dr. Margaret Mead, and Dr. Reo Fortune, who arrived from New Guinea yesterday by the Macdhui.’

Os três, eu e os antropólogos (que na verdade não eram um casal, apenas amigos, just friends), estávamos em uma quitinete, um dos dois morava ali, não sei dizer qual deles ou se os dois. Eram tempos difíceis para bolsistas de pós-graduação. Na miniatura de casa havia um colchão de casal jogado ao chão, uma estante cheia de títulos que eu não fazia ideia do que se tratava: “O Pensamento Selvagem”, “Pacificando o Branco” e algo como “Arueté”. Minhas ideias foram a mil, o que poderia ser uma noite de sexo aventureiro com um casal de… Selvagens antropólogos?

Fui ficando cada vez mais excitado, não conseguia pensar nas loucuras que viveríamos juntos. Seria como um fetiche descoberto segundos antes da possibilidade de se concretizar. Ela começou a tirar a roupa. Sua pele era morena, suas costas me lembrava um belo violão e eu só pensava em tocá-la. Sua nudez era quase imaculada, mas cheia de pecados. Enquanto eu me distraia com as curvas da morena antropóloga, ele também se despiu e eu não sabia o quanto eu poderia me encantar com um corpo masculino. Ele era magro, um porte “normal”, mas eu podia ver que haviam músculos, belos músculos que eu poderia delinear metodologicamente com minha língua. 

Eu já não podia me conter, o que eu queria era fenomenológico. O processo hermenêutico daquele momento já não bastava para mim. E, por fim, eu era o único vestido entre nus. Apressei-me em me desnudar e investi diretamente no lambível corpo masculino e me tornei, também, lambível. Saliva. Não é possível fazer sexo sem saliva. Entre suores e saliva nos deliciamos em nossos sais. A euforia foi possuída por um tipo de constrangimento moral. Eles não queria aquilo, eu pensei. Em momentos de distração, os fraguei com o pensamento ao longe enquanto me chupavam. Era mecânico, executável, moralmente manobrável por uma necessidade de ser e parecer apetitoso. Seria isso?

Entre línguas eu me dei conta que aventuras não são o meu forte. Antropólogos em vias de acabar tese não são o meu forte. Talvez o meu forte seja ter na língua a sensibilidade de um sábio ancião iniciador de gueixas.  E meu defeito seja não conseguir relativizar o bastante.

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