quarta-feira, 6 de junho de 2012

É feminista ou é vadia? Histórias repetidas

 

Esse post está no forno desde o dia 26 de maio, mas o cotidiano não me deixou terminar de escrevê-lo, por isso ele só vai sair hoje. O assunto que vou tratar aqui é um pouco menos jocoso, mas podem rir também se quiserem. Eu queria falar um pouco sobre a luta de algumas mulheres, sobre uma história de ousadia e de vontade de se ver livre das amarras de uma estrutura em que os homens podem sempre mais.

O que aconteceu no dia 26 de maio? A Marcha das Vadias de Brasília – DF. Lá estávamos, eu e mais alguns amigos, para dar voz e volume ao movimento.

Marcha das Vadias - Brasília/DF

E aí que eu vi no twitter muitas pessoas – homens e mulheres – criticando o nome da marcha, dizendo que era feio, pesado, baixo nível e tal. Mas vi também que eles não sabia o por quê da marcha se chamar marcha das vadias, não tiveram um mínimo de curiosidade em procurar saber por quê do nome, o que motiva a escolha do nome, pois bem, vou explicar mais uma vez.

No campus de uma universidade do Canadá estava ocorrendo muitos casos de estupro e na ocasião um chefe de polícia palestrou sobre segurança no campus para os alunos e ao falar sobre os casos de estupro alertou as mulheres que não se vestissem como vadias [a palavra usada foi slut], o que causou a comoção das alunas, pois mais uma vez na história as mulheres estavam sendo acusadas de provocarem a violência contra si, pois não estavam se comportando de acordo com o padrão-santa-de-ser. E assim começou o movimento…

Contudo, a luta de mulheres pelo direito de exercer a sexualidade e de viver sua vida pública do jeito que bem entender não é uma causa desse princípio do século XXI. Se pensaramos em alguns casos e momentos do século XX chegaremos a conclusão que temos um século e as lutas parecem ser um tanto quanto repetidas. Só preciso ressaltar que quando eu digo histórias repetidas não estou dizendo, de maneira alguma, que não ocorreram mudanças, que as coisas permanecem como eram a um século atrás e que as lutas não deram em nada, mas estou dizendo que a pauta ainda precisa ser a mesma e isso é bastante triste.

A pauta é: Poder ser vista publicamente e falar publicamente, o direito por estar na rua, o direito por não ficar presa em uma bolha moral [em casa ou em roupas ‘comportadas’]. Ter reconhecida a sua capacidade para tanto.

flapper1

Década de 1920, flappers estão por aí, com seus cigarros nas piteiras, suas saias encurtadas, mais soltas, seus cabelos curtos e negros. Mulheres que viviam a rua com sua forte maquiagem, bebidas, sexo, jazz, carros e sensualidade. Quem duvida que foram milhares de vezes chamadas de vadias? Mas quem ousaria negar que elas estavam a frente do seu tempo e que já começavam a fazer valer a pauta feminista? Elas estavam nos espaços públicos, fazendo coisas que mulheres não deveriam fazer, que não lhes era permitido, elas estavam subvertendo a ordem.

Podemos falar também das sensuais pin-up’s penduradas nas paredes e de mulheres fazendo shows burlescLeila Dinizos. Podemos falar de Rosie de Riveter nos Estados Unidos, de Pagu no Brasil, podemos falar de Simone de Beauvoir e de queima de sutiãs. Podemos falar de Dercy Gonçalves e da lindíssima Nora Jeane. Podemos contar histórias e mais histórias de mulheres que lutaram publicamente por diferentes causas e que se expuseram ao falar de maneira livre sobre o que só é permitido aos homens falarem.

Como aconteceu com a Leila Diniz, que ousou falar sobre sexualidade, não teve vergonha de mostrar a barriga da gravidez ao usar um biquini na praia, não teve medo de ser mulher livre em época de repressão no Brasil da década de 1960 e 1970. Ousou ser uma mulher que fala palavrões e que sem nenhum constrangimento relata ao jornal suas histórias sexuais, sua maneira de viver a sua sexualidade.

São inúmeras as mulheres, ao longo desse último século que receberam o título de vadia para que as coisas pudessem começar a mudar, começar a ganhar outra forma e para que as mulheres pudessem vivenciar seus dias de rua de uma maneira mais livre, sem-vergonha.

E se eu disser que estou vivenciando minha liberdade e você me chamar de vadia, estarei feliz.

Marcha das Vadias em Brasília - DF

See u!