domingo, 25 de março de 2012

Lealdade, não me seja problemática!

 

William Klein - Anouk Aimée - 1961

Se você olhar no dicionário o significado das palavras fidelidade e lealdade verá que não são tão diferentes uma da outra, em suma, as duas dizem respeito à honrar um contrato feito, contudo, a fidelidade tem como parte peculiar do contrato o amor, abstrato, amor.

Lealdade é então respeito aos princípios e regras que norteiam a honra e a honestidade [em dicionário Houaiss]. Ou seja, ser leal é ser honesto e ser honesto é, para mim, algo que tem a ver com não mentir, com dizer a verdade [que a gente sabe que é só sua, mas é uma verdade] sobre o que foi indagado. Eu sou super fã da tal lealdade, admiro e respeito profundamente quem tem a capacidade de sê-lo [leal].

No entanto, ser leal é imensamente dolorido, pois, diferente da fidelidade, a lealdade não depende só de você, depende da capacidade do outro de lidar com verdades. Mentiras podem ser – e são, na maioria das vezes – muito mais confortáveis do que qualquer verdade. Desde a mais tenra idade aprendemos a mentir, quantas crianças já não vimos sendo coagidas por estarem sendo “naturalmente sinceras demais”, como lhes é peculiar? E aí, essa mentirada toda que envolve estar moralmente constituído como sujeito de uma sociedade nos faz entrar em conflito com a tal lealdade.

A lealdade implica em poder contar ao seu parceiro contratual – em papel ou em honra – o que você quiser e poder ter a certeza de que ele não irá desconfiar, se exaltar ou pensar minimamente que você não está honrando o contrato. A lealdade pressupõe que o outro irá ter estômago e brio treinados o suficiente para ouvir qualquer coisa e a partir do que ouviu tomar suas decisões baseado na versão da história que lhe é acessível, isto é, do seu parceiro, porém respeitá-lo.

Todavia, pode ser mais confortável ser apenas fiel e deixar a lealdade para lá. A fidelidade apenas lhe proíbe de quebrar um acordo do contrato, como por exemplo: em um relacionamento amoroso não se pode ser bígamo e nem sassaricar por aí com outra pessoa que satisfaça as suas vontades carnais. E fazer isso é fácil, fugir das possibilidades de traição é fácil, difícil é querer dizer ao parceiro que teve a oportunidade, mas que não o fez. Difícil é dizer ao parceiro que percebeu como é fácil estar com outra pessoa em busca de prazer, mas não o fez. Na verdade, difícil mesmo é o parceiro compreender que quando você diz isso você está sendo tão clara, tão transparente que é como se você não pudesse ser outra coisa do que inteiramente dele e de mais ninguém, pois mentiras e omissões são caquinhos da máscara que você quebrou no começo do relacionamento sendo colados novamente.

Eu não gosto de máscaras, mas eu gosto menos ainda de ter que ficar justificando-me por causa da incapacidade do outro de acreditar no que claramente eu digo.

See u!

domingo, 18 de março de 2012

A Medida do Abraço: Burocratizando o afeto.

 

Sentir falta de abraço é um sinal neon forte luminoso em noite de lua nova – bem escura – de que há uma generosa gota de blue pintando sua bacia de água límpida. E aí alguém pode dizer: – Gente, mas é tão simples um abraço, a gente pode abraçar até a caixa do supermercado.

E eu vou dizer: – MENTIRA!

A caixa do supermercado pode passar seus braços pelo seu tronco e vc pode passar seus braços pelo tronco dela, daí uma trazer o corpo da outra para mais perto. No entanto, isso é técnica, a técnica do abraço. Abraço, abraço mesmo a gente sabe que pode demorar nele, que pode encostar o rosto no rosto do outro e que se brotar a vontade de um beijo, basta virar um pouquinho o rosto que já tá demasiado junto e estalar uma beijoca na bochecha, com alegria e conforto.

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Então a gente pode saber quão amigo se é de alguém, qual o grau que se está de acordo com a formalidade do abraço. Sim!! O afeto pode ser medido pelo abraço.

Começando pelo mais formal, vejamos as medidas, os abraços e seus possíveis significados:

Encostadinha com tapinhas nas costas: Não conheço você, não tenho pretensão de conhecer e estou apenas sendo gentil.

Abraço com as mãos espalmadas nas costas na  altura das asas: Você é um[a] fofo[a], mas ainda não confio em você o suficiente.

Braços entrelaçados, mas pouca duração e pouca força: Você é muito legal, gosto muito de você, mas ainda não posso dizer que confio em você.

Braços entrelaçados, muita força e pouca duração ou vice-versa: Amizade é algo que temos, mas algo em você ainda me deixa inseguro.

Braços entrelaçados, força, duração eterna, rostos grudados, beijos estalados, carinho, lágrima e seja lá mais o que precisar: Você é um grande amor e sem seu abraço eu não me sinto seguro[a] para caminhar por aí.

Enfim, abraços podem ser determinantes em nossas vivências, experiências e para suprir medidamente nossas carências. Eu, sendo uma carente profissional, preciso de abraços – pelo menos fortes – periodicamente e o que fazer quando os braços que realmente nos envolve não estão por perto? E quando aquele abraço que nos faz sentir que toda possibilidade de dor desintegrou, sumiu, não volta mais está longe e demora a chegar?

Eu tenho guardado em mim vários abraços, uns que existiram no passado, outros que estão no coração, alguns não vivo sem, outros simplesmente me retém e minha vontade é de morar ali para sempre.

O abraço cantarola no peito, o abraço verdadeiro é toalha morna na dor, é cobertor quentinho no frio, o abraço é a vontade de dois corações de estarem grudados, unos, apaixonados.

Ai que saudade dos meus amores e dos meus amigos. Viva meus amigos… E viva a possibilidade de novos amigos também.

See u!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Conto nº 8– Precipitações e frustação de um patife.

 

Achei que nunca iria conhecer uma mulher como ela. Ela é diferente, com um olhar sedutor que não se pode encarar, menina-mulher-moleca-madura, uma mistura que a deixa inevitavelmente atraente. O sorriso dela comunica-se com um pedacinho do céu, tenho certeza. Foi na casa de amigos que temos em comum que nos conhecemos e ela gargalhava, como eu acho lindo a gargalhada de uma mulher livre.

Comecei então a prestar atenção em seus gestos, sua maneira de tocar os lábios  e de comer a pizza, conversava sobre tudo, sexo, religião, amor, astrologia e, no final, sempre sorria. Era como se eu tivesse sido transportado para um tempo que não existia, que eu desconhecia e que lá ela era a rainha. Foi inexplicável, me encantei. Nos primeiros momentos de conversa pude perceber o quanto ela era livre, mesmo sendo um clichê eu não poderia descrevê-la com outra palavra que não descolada. Isso mesmo: descolada. Desamarrada, solta no mundo e de uma alegria descomunal.

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Sentei-me ao seu lado e comecei a conversar mais com ela, não conseguia encará-la, mas cada vez que eu levantava meu olhar até os olhos dela eu os sentia dizendo: “Por que você não me encara?” Tentei, eu juro. Algumas vezes eu fixei o olhar, mas não durou muito. Então durante a conversa eu soube que ela havia vindo de outra cidade, daquelas que não ficam nem tão longe e nem tão perto.  E que lá naquela cidade ela havia deixando um noivo que por vários motivos não pudera acompanhá-la. Foi como se ela tivesse batido e soprado. Ela era comprometida, mas ele estava em outra cidade.  Quase no fim da noite eu não resisti em testá-la, em saber se eu poderia continuar encantado ou se o sopro havia sido ineficaz para a dor. Maldita hora que eu priorizei o teste, maldita precipitação.

Foi então que eu disse: – Você tem namorado, mas rola uma escapadinha! E ela franziu a testa e respondeu: – Não, eu não teria esse tipo de atitude.  Ainda tentei argumentar, dizer que o corpo uma hora reclama. E ela me lançou um olhar que me fez pensar: “Que merda é essa que eu estou falando!?”

Fiquei ali, frustrado, sem saber como lidar com minha estupidez. Pensando que agora ela iria me considerar uma patife, que talvez ali tenha desmoronado uma possível amizade cheia de encantamento. Acabei com a minha possibilidade de sentir mais um pouco todo aquele gostinho de descoberta, encontrei uma mulher diferente de qualquer outra que já conheci e a tratei como uma pessoa que desrespeitaria quem ama só porque ela preza a sua liberdade. Definitivamente fui um patife.