quarta-feira, 18 de julho de 2012

[Manifesto] Sem Vergonha de ser Mulher: Você tem autonomia, garota!

 

“Prefiro ser uma ciborgue a ser uma deusa.” [Donna Haraway]

 

Estava eu, no meu quarto, assistindo meu querido Silvio Santos no domingo. O programa do De Frente com GabiSilvio acabou e eu ajeitando as coisas pra dormir deixei a TV ligada, de repente me deparei com uma ativista com flores no cabelo como uma deusa pertencente a FEMEN no programa “De Frente com Gabi”, parei para ouvir e soube que aquela moça que falava era Sara Winter, uma brasileira de 20 anos que estava assumindo uma filial da FEMEN aqui no Brasil.

Parei para prestar atenção, afinal poderia ser uma via para me informar melhor sobre esse movimento ouvindo da boca de uma delas o que era aquele protesto de topless. Contudo, à medida que fui ouvindo a Sara falar fui ficando entristecida, vendo quanto o discurso de moralização dos corpos e de vitimização da mulher ainda está na moda, no final da entrevista eu estava decepcionada, frustrada e me sentido traída, afinal, parece que as coisas não vão mesmo mudar.

O que mais me agrediu no discurso dessa menina que até 2002 seria considerada menor de idade foi a sua fala sobre prostituição. O discurso era o mesmo discurso cristão que eu cansei de ouvir quando participava de movimentos de jovens na igreja católica. A pobrezinha da mulher não tinha o que fazer para sustentar a família tão pobre e foi pelo caminho mais fácil, o caminho do mal, a prostituição. Ela não teve escolha, o sistema a tratou como vítima e ela teve que se adequar.  Pro INFERNO com esse discurso.

Minha decepção já vinha se acumulando, lembra que eu fui na Marcha das Vadias?? Pois então, eu estava acompanhando a página da Marcha no facebook e em um dia qualquer deparo com essa postagem:

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Indaguei, mas eu já sabia a resposta, estou cansada desse discurso proferido pela “Carol Mariano” que apenas é mais uma entre tantas ditas feministas que engolem formulazinhas prontas. Eu quis provocar, ver se alguém repensava esse discurso, mas esqueço que a onda de hoje é comprar uma calça jeans com cara de surrada e meio rasgada na grife ao invés de usar uma calça jeans até surrar e rasgar e continuar usando.

Mas esse post não é só um longo e cansativo mimimi… Acho importante para mim mesma fixar aqui minha opinião sobre todo esse blá blá blá que me deixa tão frustrada. E se você tiver tempo, fôlego e interesse, leia até o final, pode ser interessante.

Vamos lá…

Todo esse discurso aí me cansa porque ele parece papo de viúva traída com o morto no caixão, parece um tipo de redenção cristã, a busca pela salvação, o encontro das mulheres inteligentes com uma nova maneira de viver, mas que no final não vai dar em nada, tudo vai continuar do mesmo jeito. Contudo, ao manter o politicamente correto a fachada da casa não recebe pichações.

Se você luta contra a exploração sexual de mulheres e crianças não venha me dizer que vai combater a prostituição, isso é conversa fiada. Você deveria combater a mentalidade do explorador.

Campanha MS

Vê o cartaz aí ao lado, eu me lembro bem dessa campanha, eu estava na graduação (2004 mais ou menos) quando o GRAPPA (Grupo de Apoio a Prevenção aos Portadores da AIDS) divulgava essa campanha do Ministério da Saúde e eu tinha uma colega de classe que era voluntária lá. A campanha distribuía camisinhas masculinas e femininas para as prostitutas da cidade e o discurso do pessoal da campanha para as prostitutas era mais ou menos assim: “você irá dizer para os caras que só trabalha se for com camisinha, se ele se recusar a colocar, você coloca a camisinha feminina”. Foi nessa época que eu vi a primeira vez uma camisinha feminina. Tive várias conversas com essa colega que hoje é minha amiga e a partir de então comecei a ver as prostitutas com outro olhar, como profissionais. Lembro que nesse mesmo período eu vi uma entrevista da Nancy Feijó, presidente da  Associação das Profissionais do Sexo do Recife, no Programa do Jô e pensei sobre como realmente elas estavam levando a sério o fato de se profissionalizarem e, assim, terem direitos sociais. Não eram vítimas!

Ser prostituta não é um caminho fácil, é uma escolha como outra qualquer, não quer dizer que se mulher escolheu ser prostituta é porque ela não tinha outra alternativa, talvez tivesse, mas preferiu, por motivos que dizem respeito só a ela, ganhar dinheiro fazendo sexo.

É importante compreender que a discussão sobre a profissionalização e o respeito com as prostitutas está ligada a discussões sobre direitos sexuais. A luta feminista deveria ser uma luta por liberdade. E liberdade quer dizer autonomia e poder fazer uso do próprio corpo como bem quiser. Considero uma hipocrisia as meninas irem para a Marcha das Vadias vestidas de putas, com roupas sensuais, provocantes e depois – como no post aí acima – virem dizer que é só ato político, que na verdade as mulheres que comercializam sua sexualidade, sua sensualidade ou é vítima da sociedade patriarcal (coitadinha, não sabe que está favorecendo os estereótipos sexistas que configuram a mulher como um objeto) ou é inimiga do movimento. Sinceramente, não acho que uma menina que formatou o seu corpo durante anos para conseguir chegar a fama, para conseguir se tornar uma Panicat, por exemplo, esteja preocupada com tais estereótipos. Ela quer ser famosa, quer viver da fama e ter seus ganhos por isso.

Acho que o que realmente falta é se pensar o sistema educacional. É pensar se estamos educando as crianças e os jovens para compreender que o corpo do outro é DO OUTRO e sendo assim ele não tem o direito de tomar posse dele. É educar de matrafico_humano0neira que saibam que não importa como o outro se veste ou configura seu corpo você só vai saber quem é ele quando você conhecê-lo, conversar com ele e ouvir o que ele tem a dizer, aí sim você poderá pensar algo a respeito de seu caráter. Talvez se conseguirmos educar as pessoas com essas ideias revolucionárias seja possível ser sensual cotidianamente, não apenas no momento de ato político. Talvez possamos sair sem sutiã, sem correr o risco de sermos encaradas e constrangidas por homens que irão julgar que isso é uma sinal de acessibilidade ao nosso corpo. 

Aí sim, não precisaremos nos preocupar com exploração sexual ou qualquer outro tipo de exploração do corpo do outro, pois se a revolução possibilitar a compreensão de que não temos o direito de tomar posse do corpo do outro, não precisaremos lutar mais contra o tráfico de pessoas ou contra qualquer tipo de trabalho escravo: de adultos ou crianças. Pois este não existirá mais.

A luta da humanidade deveria ser contra o subjugar e a favor da autonomia.

See u!

10 comentários:

  1. Adorei Cassiane... se era sua fã... agora sou mais ainda... por isso as coisas nunca mudam deveriamos unir forças não para derrubar as mulheres que optaram em ganhar a vida de uma forma não convencional....mas, sim para sermos respeitadas e tratadas como iguais.... Quem sabe algum dia isso muda?

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    1. Obrigada pela consideração. Mesmo estando em dias de frustração ainda acredito na revolução das idéias. \o/
      O importante é propagar novas formas de pensar!

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  2. Vi uma (pseudo) entrevista dessa representante do FEMEN em um programa do Danilo Gentili, pseudo entrevista porque ele finge que entrevista e ela fingia que dizia algo de relevante.
    Sempre achei esses discursos feministas uma forma de colocar as mulheres como vítimas, como coitadinhas vítimas do sistema, que, muitas vezes, não são vítimas, elas optaram por terem um corpo comercial. rs
    Acho essa luta feminista, hoje em dia, uma luta vazia, sem objetivos. A liberdade que muitas buscaram e ainda buscam está sendo confundida com imposições do "você não pode fazer isso", "você não pode fazer aquilo", incomoda-se mais com o que a outra faz com o proprio corpo do que , como você mesma disse, tentar educar, fazer com que as pessoas respeitem, respeitem os gostos dos outros, as escolhas, respeitem o próximo.
    Enfim, acho que esses movimentos não respeitam as escolhas dos outros. rs

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    1. Ô Carollzita, a coisa tá difícil, né?!
      São várias as lutas feministas, não vamos deixar essa cara que aparece mais obscurecer as idéias de quem realmente anda pensando em mudança.
      =**

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  3. Fiz um vídeo no meu vlog sobre o FEMEN, confira lá ;)

    youtube.com/NadaCliche

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  4. Recomendo que autora leia sobre prostituição antes de ficar defendedno de forma ignorante esta viol~encia contra nós mulheres.

    http://arttemiarktos.wordpress.com/2011/01/02/do-cliente-ao-proxeneta-a-banalizacao-da-prostituicao/

    E a fala de uma ex protituta:

    http://arttemiarktos.wordpress.com/2011/06/22/profissional-do-sexo-nunca-conheci-uma/

    E se vc é contra estupro e pedofilia,por que defende para outras? E quem te disse que prostituição não é trabalho escravo,vc já leu sobre tráfico de mulheres?E se cada um faz o que quer,o homem tem todo o direito de nops violentar e até nos matar,não é verdade?Enfim,muita ignorãncia machista no seu discurso,típica liberdade calcada na lógica machistóide que deseja que sejamos cumplices da nossa própria exploração.E para finalizar a sua conversa com as tais protitutas,pergunte se um drogado gosta de ser drogado? Ele vai responder que sim e nem por isso drogas deixam de destruir a vida humana.Meia dúzia de prostitutas querendo legalizar sua destruição não anula os leilões de virgens de 11 naos que temos pelo Brasil é fora enme po tráfico de mulheres e meninas.Mas se vc acha tudo isso é uam "questão de moralismo",não reclame quando sentir na pela o dierito masculino de nos tratar como coisas discartáveis.

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    1. Acho que você NÃO sabe ler. E eu não converso com quem é analfabeto por seleção.
      Se você tivesse lido realmente o que eu escrevi não estaria dizendo que não tenho leitura sobre tráfico humano, que estou trabalhando em prol da prostituição de crianças, se você soubesse ler você não associaria prostituição a vícios, se você soubesse ler não acharia que eu estou dizendo que está tudo bem se um homem tomar posse do seu corpo e fizer dele o que quiser, se você soubesse ler teria lido. Mas como não sabe, não delongarei minha discussão.

      Você acha uma profissão digna para um homem de 50 anos carpir todo um terreno de 300 metros debaixo do sol quente do sertão do Brasil numa tarde? Você acha que ele escolheu isso? Você acha que esse tipo de trabalho é menos escravo? Pense que em cada lugar, cada profissão, haverá pessoas sentindo-se exploradas, porque o sistema capitalista explora e se você trabalha, com certeza é explorada também, mas vai se redimir dizendo que as prostitutas não podem fazê-lo. Amém.. Vá com Deus! Porque lutar contra a mentalidade de exploração é mais difícil, não é? É mais cômodo afetar os "miseráveis". Afetar quem tem dinheiro é difícil, então a gente atrapalha a vida de quem não tem. Sonhar é possível! Continue sonhando...

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  5. Esqueci deste link,onde até mulheres grávidas são compradas para comsumo sexual...

    http://nucleogenerosb.blogspot.com.br/2012/07/feminismo-e-prostituicao-em-tempos-de.html

    Agora me diga,a hipocrisia eo moralismo é de quem,das feministas que lutam para todas sermos vistas como gente ou dos homens que se acham no dierito de usar uma parte de nós para abuso sxeual pago e depois querer "moça decente" para casar???Vamos despertar,né filha??Para convencer o homem que ele não tem direito de tomar posse do corpo da mulher,tem que se lutar contra o estupro pago da prostituição,não é ficar defendendo de form afantasiosa como vc fez e alegar que educação é que resolve!

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    1. Eu já disse que você não sabe LER. AH! Já disse...

      Ainda acho que educação resolveria, principalmente no seu caso.

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