sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dores abstratas: Sobre morte e individualismo

sangue latino 5

Existem tantos tipos de dor que classificá-las ou colocá-las em uma régua de “de um a dez, quanto intenso foi?” é extremamente imbecil. A pessoa lida com a dor de acordo com sua própria experiência, sei que a dor é um conceito universal, acredito que em qualquer lugar do mundo que se vá haverá uma termo para designar dor e se não houver, as lágrimas a designa.

Você, definitivamente, sabe que nada poderá doer mais quando você sente uma dor abstrata se torna física e você esmurra a parede de dor. A morte de quem se ama com um amor infinito proporcionou em mim essa dor. E quando você esmurra a parede de dor é porque realmente nada pode doer mais do que aquilo.

E, sabe, nenhuma morte mais importa. Não sei se esse sentimento é apenas meu, se sou tão individual que burocratizo até minhas dores. Mas antes da cadeira na cabeceira da mesa ficar vazia em minha casa eu sempre sentia uma singela dor pelo outro que me anunciava a morte de um ente querido. Contudo, notícias de morte passam por mim hoje como qualquer outra notícia.

Na verdade, é como se não houvesse sobrado dor para gastar com morte de outros, eu havia gastado toda minha dor, todo o meu luto em um prazo de três anos. No dia 16 de dezembro de 2005 meu pai morreu e eu senti-me doente, sem forças, “sozinha no mundo sem ter ninguém” e não havia conforto em lugar algum. Apoiei-me em pessoas de fora da minha casa, pois minha casa estava escura, éramos zumbis, minha mãe ficou por muito tempo acamada – em um luto eterno. Eu não conseguia gritar, não conseguia falar, não conseguia arrancar aquilo de dentro de mim e fiquei no meu túmulo, em silêncio, por algum tempo.

Quando minhas olheiras começaram a desaparecer, o aspecto de zumbi desaparecer, em 16 de abril de 2007, a irmã do meu pai [e minha madrinha] e uma das pessoas que ‘segurou minha onda’ durante o período zumbi foi viver com os outros ancestrais. E eu achei que gritar resolveria. E achei que esmurrar a parede me acalmaria. Achei também que brigar com Deus estancaria minha dor acumulada.

E agora, quando alguém vem me contar que um ente querido morreu, com olhinhos de “me abrace, pois estou sofrendo muito”, o máximo que consigo fazer é dizer “espero que você fique bem logo” e dou um abraço leve. No entanto, é como se no meu interior eu reagisse com um “não me importa que seu ente querido morreu, pois eu vivi um acúmulo de dor que me gastou inteira”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA         Tornei-me insensível? Será? Não sei! Diferente de alguns aqui de casa eu não comprei livros que explicavam os sentimentos “dos que ficaram”. Eu estava de mal de Deus e não usaria do seu abraço fraterno para me consolar.  Aprendi ao meu modo a lidar com essa dor e acabar com meus pesadelos. Suavidade é o segredo.

São 6 anos sem meu pai, o sol daqui de casa. E hoje, cada um de nós, gira em torno de si para encontrar seu eixo, mas os dias -  mesmo que divertidos – não voltaram a ser ensolarados.  Eu nunca vou me esquecer que sou filha de um Catão [diz-se de ou indivíduo de princípios e costumes excessivamente rígidos e severos] que mesmo com toda sua austeridade tinha o sorriso mais lindo e mais fofo do mundo inteiro.

Sebastião Cássio Diniz [Catão Diniz]  ✩ 07/09/1954  ✤16/12/2005

2 comentários:

  1. :(

    Tem o que dizer não. Perdas são dores particulares. A gente sofre, e mesmo anos depois a saudade bate vez em quando. Como imagino que tenha batido para você agora.

    Fique bem logo.

    Beijos,

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