domingo, 13 de março de 2011

Conto nº 6 – Lembrança mórbida

Eu estava me lembrando daquele junho de 1998. A cidade era silenciosa e quieta, provinciana. Hoje ela ainda é provinciana, mas não se pode mais voltar para casa de uma distância de três quilômetros a pé tranquilamente. Éramos um grupo de jovens com idade entre 14 e 17 anos. Houve uma festa de 15 anos de uma amiga lá do bairro, a festa foi em um salão a mais ou menos três quilômetros.

Na ida tivemos caronas, mas as três da manhã voltamos andando e sorrindo pelo caminho. Na festa estava ela, singela. Dançou a festa toda. Soube que ela estava apaixonada por mim, mas eu não soube o que fazer com essa informação de imediato. Eu a achava bonita, porém ela era tão tímida. Eu gostava de meninas mais atiradas, daquelas que tomam a iniciativas e, para ser sincero, eu gostava principalmente das não-virgens [ou pelo menos aquelas que pareciam que iriam logo deixar de sê-lo].

Houve um momentos que dançamos juntos [no mesmo grupo], contudo ela não sabia para onde olhar, me posicionei na sua frente e fiz aqueles passinhos ridículos de axé e ela ruborizou. Ela ruborizou. Que bonitinha! Logo ela se afastou e me deixou dançando no meio da turma. Ela não paquerava comigo, como podia ser mesmo verdade que estava apaixonada. Que preguiça eu tinha daquela timidez.

Ah! Se ela fosse mais ousada…

Papos, sorrisos, risadas e quando eu estava por perto demais ela sempre dava um jeito de se afastar um pouco. Disseram-me que depois que ela soube que me contaram que ela estava apaixonada que ela não conseguia ficar perto de mim sem sentir muita vergonha. Maldita timidez.

Hora de partir… Lá vamos nós, em bando, caminhando até nosso bairro. Eu não tinha ficado com ninguém na festa, tentei me aproximar dela, mas não consegui. No caminho de volta andávamos por uma rua longa e escura, chamei um de meus melhores amigos e pedi que me deixassem para trás e que avisassem a ela para ficar para trás também. Enquanto eu falava com meu amigo eu a via entre o pessoal do grupo dando risada e fazendo piada [nem parecia a mesma menina tímida], depois da conversa meu amigo foi até um dos meninos que era muito amigo dela e avisou o combinado. O amigo dela passou o recado e de repente eu a vi se transformando na menina tímida de novo, silenciou e grudou o amigo pelo braço, disse algo em seu ouvido e seguiu seu caminho. Fiquei caminhando atrás do grupo, com alguma distância por algum tempo, daí notei que ela não havia aderido ao plano.

Até hoje não consigo entender como alguém apaixonado pode deixar a timidez ser muito mais forte do que a paixão. Maldita timidez que não me deixou provar aqueles lábios, maldita timidez que não me deixou tocar aquela pele branca. Maldita timidez, maldita!

2 comentários:

  1. medo!
    mas é bonitinho demais pensar no que a gente não fez. eu me convenci, por ser mais tranquilizante, que não devo ser apenas clichê e 'não me arrepender do que fiz'eu não me arrependo do que não *quis* fazer. se não quis, não teve coragem, já foi; se não se deve forçar na hora, muito menos quando já se passou muito tempo. o melhor é guardar a doce lembrança e a imaginação da infinitude do que poderia ter acontecido.

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  2. É!! O que passou... definitivamente, passou!

    =)
    E é bom que passe!

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