domingo, 29 de agosto de 2010

Wanderlust!


Wonderlust King – Gogol Bordello

Eu vou por aqui buscando. Na busca eu encontro muita coisa. Mas ainda sinto falta de algumas. Busco mais. Quero mais. Por enquanto estou aqui. Não sai do lugar onde nasci. Não é isso que meu espírito quer, mas eu nasci em um péssimo corpo. Meu corpo é preguiçoso e medroso para caralho.

Que tal uma dose de rum e um navio?

Que tal uma trupe com rostos pintados e loucura nos bastidores?

Que tal tentas desmontadas nos lombos dos cavalos e saias rodadas?

Que tal o desconhecido?

Que tal ter coragem?

Que tal assumir seu espírito nesse corpo inacabado?

Que tal espingardas e jagunços?

Que tal antropologia sem gabinete?

Que tal viver?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

[BlogTerapia] Eu ando pelo mundo!


Foto: Arquivo Pessoal

Quando eu era bem pequena [mas já me entendia por gente] minha mãe me contou uma história sobre mim. Ela dizia que eu tinha nascido feia e que ela tinha vergonha das reações das pessoas diante de mim. Nunca esperou que dissessem “Oh! Que criança linda” quando andasse pela rua comigo. No entanto, um dia uma mulher que teria sido lavadeira uma ou duas vezes lá em casa a encontrou na rua com o novo bebê e disse: “Que menina linda, iluminada, você vai perder essa menina logo, ela é um anjo!” Minha mãe disse que no dia voltou para casa muito assustada, pois de acordo com ela aquela mulher era macumbeira. E mesmo que os cristãos insistam em dizer que não acreditem em “macumba” sempre acreditam que as pessoas que a praticam possuem algum tipo de poder sobrenatural. No fim, minha mãe terminou a história dizendo que aquela louca mulher mentira e que eu estava viva, não era um anjo.
Talvez aquela mulher tivesse razão parcial em dizer que minha mãe iria me perder logo, pois foi exatamente isso que ocorreu, logo percebi que eu não era dessas bandas de cá, não me identificava, não pertencia, não sei de onde sou, não sei onde encontrar beleza, e  isso não é estritamente  conclusões inspiradas na maiêutica. Sinto a cada dia mais que não estou por perto dos meus amigos, que as almas que me são caras não estão perto de mim, que fui lançada em um lugar sozinha, exilada dos meus. Loucura, mistificação da própria vida? Não sei, só sei que sinto isso a muito. E sentia cada vez mais, a cada vez que eu conhecia pessoas novas e elas diziam “de onde você é? Você não é daqui, é?” e eu repetidamente dizia, “sim, sou daqui, nascida e criada”. Algumas vezes cheguei a indagar o por quê dessa dúvida de que se eu me tratava de alguém das gerais, não das minas ou de algum lugar mais ao sul do país, como sempre insinuaram que eu fosse, mas eu não tive resposta satisfatória.
Não consigo sentir que tenho uma ligação afetiva extra-corporal com as pessoas as quais convivo. Sinto-me deslocada, fora do eixo e isso constantemente me desestimula. Seria algo que eu construí por causa dessa historinha que minha mãe contara sobre a bebê feia que foi vista pela macumbeira como um anjo na terra? Não sei.
Eu sei que a cada nova quase-morte [já foram duas – reais] eu sinto isso de maneira mais forte, o amor da minha vida não é minha alma gêmea; meus pais, irmãos, tios, avós, primos e amigos não são almas afins. Eu não sinto isso. Não me sinto posicionada dentro dessa trama que é minha vida.
Talvez tudo isso seja balela inventada por uma mente fértil e delirante. E se o for, lhe garanto, é totalmente persuasivo, pois eu sinto.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Usurpador: Sobre o Menino-Homem.

Ah! Temos um traidor neste lugar,
Um rebelde estranhamente audacioso,
Um sujeitinho gago, risonho e de passos hesitantes
Que não tem mais que quatro anos de idade.

E lembrar que eu que governei sozinho
E orgulhoso no passado
Tenho que deixar meu trono
Para meu próprio filho, enfim!

Ele anda daqui para ali, traidor,
Como só os bebes sabem ser
E diz que quando for um "homem bem grande"
Vai ser a beleza da mamãe ... !

Garoto mesquinho! Você teve sempre
Um pouco do coração dela,
Será que deixou para seu pobre papai
O menor cantinho?

A mamãe, tristemente, vejo,
Inclina-se por sua parte
Como se uma dupla monarquia
Devesse governar seus sentimentos.

Mas quando os anos da juventude vierem
O barbado esquecerá, aposto,
Que um dia prometeu
Ser o tesouro da mamãe.

Renuncie à traição, filhinho.
Deixe para mim o coração da mamãe
Pois alguém há de haver no futuro
Exigindo a sua lealdade.

E quando ela chegar até você
Deus mandará um amor que brilhará
Por toda a vida - belo e verdadeiro
Como brilha hoje o meu por sua mãe!

FIELD, Eugene, "To a Usurper", 1904. (Poema traduzido para o livro "Macho e Fêmea" de Margaret Mead, 1971. P. 96 - 97)

Estou aqui estudando minha antropologia e deparo com esse poema, esse poema para falar um pouco sobre o complexo de édipo, que não se aplica em todas as sociedades. Mead (1971) diz nesse livro que estou lendo que talvez o complexo de édipo se aplique em nossa sociedade porque a mulher de nossa sociedade busca no filho homem suprir carências afetivas que o seu homem não supre. Eu gostei dessa hipótese...

Penso que seja real que quem cria a dependência e a disputa entre os homens é a própria mulher/mãe. Se não ocorre a fomentação da disputa não ocorre o complexo de édipo. Muito coerente.








Um brinde a Margaret Mead.


sábado, 14 de agosto de 2010

Inventando uma nova classe média.



Sabe aquela família do comercial de margarina? Pois então, aquela família é da classe média. Todos parecem ter um plano de saúde fabuloso, seus dentes são lindos e brancos, sua aparência muito saudável e olhem! Eles são todos brancos. Essa é uma família feliz da classe média.
Quer dizer então que black people não é classe média? Sim, é. E também podem ser igualmente felizes como uma linda família de comercial de margarina.
O que está por trás dessa imagem feliz de família é o que me preocupa, ser classe média nos leva a querer padronizar as coisas, as roupas, o modo de pensar e agir das pessoas, padronizar os sorrisos – que é o pior.

A classe média é, as vezes, o topo mais alto do alpinismo social praticado por alguns. Chegar a classe média e quem saber dizer: “Sou classe média alta”, é como dizer “Está vendo, sou quase rico”. E nesse mundinho capitalista e blasé ser quase rico é tudo que uma família feliz acha que pode desejar ser.
Daí vem um outro tipo de gente da classe média, são aqueles que não estão nesse alpinismo social para chegar a ser quase-rico ou rico, mas que também não querem se abster dos luxos que o “ser classe média” possibilita. Tem um certo tipo de preguiça revolucionária, mas na verdade, no fundo do coração, torcem para que o mundo seja melhor. Essa galera é a parte da classe média que está indignada com a atual situação da sociedade, que está estudando, são os intelectuais do nosso tempo. Dentro do seu mundinho confortável eles pensam e repensam sobre como a sua sociedade pode melhorar, mas na realidade quando ficam diante da real pobreza estão apenas fazendo um tipo de programa educativo que poderia ter o seguinte slogan: “Caravana Pés no Chão, aqui você verá coisas que você nunca imaginou que existia a dois quarteirões da sua casa”. E assim começa o safari. Voltamos (porque eu me incluo dentro dessa parcela da classe média) para casa com lágrimas nos olhos, entristecidos e indignados, mas o quê fazemos? Vamos para o boteco com um punhado de amigos falar das mazelas sociais e pensar em soluções. 
Bem… convivendo com uma norte-americana que fala português nesses últimos dias aprendi um termo – que surgiu de um erro dela ao usar a língua portuguesa – que exprime a categoria em que essa parcela da classe média se encontra, somos então da meia-classe ou como eu apelidei, depois das gargalhadas e das reflexões de alguns membros do grupo sobre o erro acertado, a classe do meio. Aqueles que tem uma simpatia pelas causas populares, pelo ter que fazer algo, mas não querem sair do seu conforto para fazer algo, precisam manter seu padrão de meia-classe e por isso não têm tempo para luta de classes. Enfim, estão em cima do muro. Não trepam e nem saem de cima. Não cagam e nem saem da moita. E esse é um tipo de posição muito mediocre.
Marx que me perdoe, mas ainda estamos super longe do “proletários de todo o mundo, uni-vos!”.

sábado, 7 de agosto de 2010

Bissexualidade X Bigamia.



Estava conversando com uma pessoa amiga que me disse ter se decoberto bissexual. Fiquei pensando, depois que ouvi alguns relatos dessa pessoa que muitas vezes a bissexualidade é colocada como possibilidade de ser uma pessoa que não consegue ser fiel, como se o fato dela ter a capacidade de sentir desejo por meninos e meninas a fizesse promiscua por natureza.
Percebo - mais uma vez, como muitas coisas em nossa sociedade – um problema moral aí, que parte do princípio de que as pessoas tem que ser monogâmicas e que para que a monogamia ocorra é necessário que a pessoa viva uma monossexualidade. Se gosta de meninos deve gostar apenas de meninos e se gosta de meninas deve gostar apenas de meninas.
Eu, particularmente, não sei se conseguiria fazer esse tipo de coisa funcionar bem na minha cabeça. Já sou do tipo porra-louca com restrições, imagina se eu tivesse na pista pra negócio com possibilidade de querer qualquer pessoa que passasse por mim. Uh! Ia ser tenso… Mas enfim, eu sei que virou modinha as meninas ficarem se pegando na frente de todo mundo nas buatchisssssss e etc e tal, para causar total. E que esse tipo de atitude queima o filme geral da galera que é bi.
Sim, eu acho que tem diferença entre essa galerinha que é hetero e fica se agarrando para causar e quem é bissexual. E normalmente quem fica nessa queimação é a mulherada, eu não vejo nenhum garoto hetero ficar se pegando com o amigo só pra causar. Ou seja, a mulherada está mais uma vez fazendo de conta que é loucona, mas no final estão apenas cumprindo as “ordens” da voz masculina que diz que mulher com mulher é “doidimais”, super fetiche masculino.
Eu queria registrar aqui que é necessário fazer uma diferença entre  mulherzinhas se fazendo de bissexuais para atrair os machos e pessoas bissexuais de verdade. Que realmente namorariam e casariam com um homem ou com uma mulher. Vai depender de quem irá roubar seu coração. Bissexualidade é doidimais, não por causa de fetiche, mas porque eu considero que tem que ter uma mega coordenação cerebral para desejar pessoas dos dois sexo. Pois o jeito de conquistar, o flerte, muda de um sexo para outro e então, você terá que ser atraente para os dois mundos. ;)
Good Luck, dude! Espero que você não funda a cuca nesse “eu gosto de meninos e meninas!”
Um brinde a Cazuza e a Renato Russo. Por que eles são mara! HaHaHaHAHaHa… E viva o universo paralelo.
“Agora é hora de enxugar as lágrimas e voltar para sacanagem, porque é muito melhor!” Cazuza

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Conto nº 1 - Expectativa de Quase-fim de Festa

Em meio a uma brincadeira ligaram para ela. - “Vou chamá-la para cá”, disse alguém. Eu não criei muitas expectativas, mas algo a mais na noite melhora a diversão.

Ela disse que viria, mas passaram-se quase duas horas e ela não chegou. Fiz bem em não criar expectativas. - “Vou ligar de novo”, alguém disse. E lá foram buscá-la . Ela chegou. Será que devo criar expectativas?
Ela não tem uma beleza estonteante, mas tem sua beleza. Já chegou sorrindo. Brincando e até gargalhando, parece aberta a diversão.

De repente ficamos alguns momentos a sós. Amenidades, monossílabas, um sorriso e fim ao enfim sós. Parece que ela não se sentiu muito a vontade ao ficar sozinha comigo. A vi dar um sinal para a amiga que ficasse por ali.

Vou encher meu copo. Afinal beber é mais fácil do que flertar. Bebidas, música, risadas, brincadeiras, armaram o cerco e lá estávamos a sós novamente. Dessa vez ela me pareceu mais constrangida ainda. Parecia não saber o que fazer e eu também não queria fazer muita coisa. Ela resolveu tocar meu rosto e direcionar meu caminho com um só dedo. O caminho me levou até sua boca e nos beijamos, beijamos e beijamos. Em silêncio até os primeiros sons de brincadeiras dos amigos que entraram pela janela. Sorrimos dentro da boca um do outro. E nos beijamos mais. Seus dedos entre os fios de meu cabelo. Carinho entre quase-estranhos. E ela continuava disposta a gargalhadas com a mesma intensidade que continuava disposta a ficar perto de mim. Ela tinha algo no olhar que não sei dizer o que era. Talvez um descontentamento. Talvez uma expectativa.

Vodca é bom, mas eu já estava indo para o mundo inconsciente dos ébrios. E logo eu estava deitado como uma criança no colo de sua mãe. Há silêncio... Quebrado vez ou outra por uma gargalhada. Pedi que ela se deitasse também. Faz de conta que já nos conhecemos a mil anos.

Conto nº 3 – Ela que Volte Caminhando



Ela entrou na sala, eu já a havia conhecido há alguns anos atrás, rapidamente. Sinceramente, fiquei muito surpreso, como pode alguém mudar tanto assim, parecia outra pessoa, só tive a real certeza de que se tratava da mesma quando alguém disse seu nome. Ela parou na porta da varanda, meio sem graça, meio sem jeito e sorriu, anunciou uma boa noite e foi até seu querido amigo abraçá-lo. Um abraço demorado. Causou em mim inveja.

Ela estava ainda mais bela, sorridente, iluminada. Senti a necessidade de fazê-la me notar, lembrar de mim, me olhar. Então me levantei e ofereci-lhe uvas. Ora essa, uvas? Como eu fui estúpido. Mas ela aceitou, tirou-as delicadamente do cacho e colocou uma em sua boca – Oh! Que linda boca! – mas durante o percurso entre a uva e a boca ela disse: “De onde vem essa uva?” Eu não consegui responder, não consegui dizer que veio da cidade da uva, que eram uvas especiais, disse apenas “eu as trouxe”. E ela respondeu, finalizando a conversa “obrigada!”.

Fitei-a por um longo tempo, era momento de reencontro, todos sorriam e ela sempre conseguiu aconchegar, nisso ela não havia mudado, ela aconchegava a todos pelos quais passava com um abraço, um carinho, um sorriso.

A madrugada foi... Foi... Sem parar. Eu já estava com sono, mas ainda poderia ter uma oportunidade de aproximar a minha boca daquela linda boca.

Na mesa do jantar, onde agora fazíamos nossas brincadeiras, aproximei-me mais dela. E depois das gargalhadas várias pessoas começaram a se manifestar para irem para casa. E ela disse “tenho que ir, pois tenho que pedir alguém da minha casa para vir me buscar, eu não posso ficar até tão tarde”. Aí estava minha outra oportunidade, talvez a única e final, então eu disparei “não se preocupe, eu a levo em casa”. Talvez no caminho a gente conversasse mais, talvez eu pudesse tocá-la suavemente, talvez eu conseguisse alcançar aquela boca. Esse ‘talvez’ encheu minha face de luz e meu sorriso de expectador enlargueceu-se, o fardo do sono ficou leve.

Continuaram as brincadeiras... Eu já estava cansado, mas prometera levá-la em casa. E não poderia perder a oportunidade. Foi quando entre uma brincadeira e outra, ela muito desprendida disse a alguém “eu me considero casada”. Não sei a que ela respondera. Mas ela disse ser casada!? Minha luz apagou, o cansaço que já estava sobre meus ombros pesou como dez pianos.

Levantei-me como um zumbi e me despedi pensando “ela que volte para casa caminhando”.

***

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Auto-Estima ou reflexo da estima do outro?

 

Olha eu aqui mais uma vez pensando cá com os meus botões. Tem dias que a gente está bem para baixo, triste e como muitos diriam com baixa auto-estima.

O dicionário eletronico Houaiss diz que auto é um “antepositivo do gr. autós,ê,ó '(eu) mesmo, (tu) mesmo, (ele) mesmo, (si) mesmo' (representado em lat. por um reduzido número de helenismos em que auto- ocorre como pref.)”.  Isto é, auto-estima é gostar, valorizar, estimar a si mesmo.

mirror

Contudo, caimos ordinariamente no erro de dizer coisa do tipo: “minha auto-estima elevou-se quando sai com amigos e eles ficaram elogiando minha beleza”. Opá! Cadê a parte de se auto-valorizar??? É muito comum que nos sintamos mais queridos até mesmo por nós mesmo quando sentimos que somos queridos por outras pessoas. É como se ao perceber que quase ninguém gosta de você - como você acha que deveriam - você tirasse de si o direito de gostar de você também.

Eu acho essa expectativa que a gente coloca no outro tão complicada, mas acredito que acabo de perceber algo fundamental nessa expectativa toda. Se a gente depende da “aprovação” do outro para se auto-estimar, se a gente precisa receber um assobio na rua do tipo “fiu-fiu” para se tocar que deve se cuidar mais e se achar mais bonita, por exemplo, isso significa que a nossa relação em nós mesmos só existe em si quando há outro. Não existo se não existe alguém que me diga quem eu sou.

Infelizmente tudo isso é muito mais complicado do que nossas meras fantasias sobre o controle que temos sobre nosso próprio desejo. O que é o mercado de livro de auto-ajuda se não alguém que percebeu que as pessoas sentem-se felizes e confortáveis lendo palavras bajulativas, que comprar um livro inteiro que afirma que o seu leitor é especial, único, perfeito e capaz é comprar um capaixão em papel e tinta.

Eu queria sinceramente ter a capacidade de acreditar em mim todas as vezes que eu mesma me digo que sou uma delícia. Mas quem sabe um dia eu consiga…

Por enquanto vou dando up’s na minha auto-estima quando o outro aprovar meu modo de vestir, meu cabelo, meus olhos, minha boca… vou acreditando mais no outro do que em mim mesma. E agora que eu pensei isso não estou sentindo nenhum conforto com essa situação.

=/