quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sobre Inspiração e Ventas.

 

Ontem eu estive na fila do banco por 50 minutos. Pffffff… Terrível.

Bem… Tive muito tempo para olhar as pessoas, parar e reparar. Perceber as reações, focalizar, dividir grupos por possíveis idades. Sim… Eu sei! Minha mente vai longe. E eis que comecei a perceber o nariz das pessoas. E tive uma sensação estranha. Percebi que com o tempo as narinas se arreganham.

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Haviam adolescentes na fila e eu conseguia ver que suas narinas, mesmo quando o nariz era grande, estavam certinhas, bem posicionadas, eu diria até que eram belos buracos nasais. Daí eu olhava para a fila preferencial. Vários senhores e senhoras, cada um com o nariz mais arreganhado que o outro.

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- Que coisa estranha! - Eu pensei…

O próprio corpo sinaliza que com o tempo precisamos de mais inspiração para realizar nossas atividades e sonhos.

Então o nariz arregala as ventas para que o ar entre e nos permita inspirar de maneira mais condescendente.

Que a inspiração se mantenha em nós.

Um brinde à maturidade e um brinde ao espírito iluminado pela inspiração! =)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Intensa-Mente :: Infeliz-Mente

intensa

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Imagem do Vídeo: Love and Theft, Andreas Hykade.

Ver: http://www.youtube.com/watch?v=rEUxlwb2uFI

 

 

Intensa e Infeliz? Mente?

Vou explicar o porquê dessa duas palavrinhas juntas no título da postagem.

Bem, há muitas coisas na nossa vida e no mundo que parecem ser muito mais eficazes no nosso bem estar se não forem reveladas. Se não forem bisbilhotadas. Se ninguém resolvesse se debruçar sobre elas para descobrir Por quês. No entanto, a vontade de conhecer é algo que não dá para reter.

O exercício da Maiêutica - que nada mais é do que o perguntar, perguntar e constantemente perguntar – no coloca diante de um poço de lama.

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Que faz você se perguntar: “E agora?? Por onde vou passar?” E você sobe a calça, tira os sapatos e começa a andar na ponta dos pés, tentando se sujar o mínimo possível. Só que o caminho é longo e logo você se cansa de andar nas pontas dos pés, resolve então colocar a planta do pé na lama. Continua a andar e de repente, em alguma parte mais íngreme do terreno, você escorrega e se suja toda.

- PUTA QUE PARIU! – É o que você grita sonoramente. Mas aí você percebe que é tão confortável estar ali.

ANDAR-COM-PORCOSÉ refrescante. É engraçado. É ótimo chafurdar. E você começa a brincar com a lama, aquela lama que antes lhe fez caminhar como uma bailarina, para evitar a sujeira. E durante o tempo que você está ali vem chegando mais pessoas e elas também escorregam no mesmo ponto que você escorregou.

Desse ponto começa a parte intensa. Vocês se divertem muito juntos, jogam lama um no outro, se abraçam, gargalham, sentem uma felicidade plena.

Brincar na Lama É preciso continuar o caminho. E vocês sobem aquela parte íngreme com as mãos no chão, rindo, brincando, puxando os companheiros pelo pé.  Terminada a subida e você vê que existem dois caminhos, um ainda tem lama e o outro é seco e “seguro”. Você está todo sujo, a lama começa a secar e incomodar sua pele. E você não tem água limpa por perto para se livrar da sujeira. Daí você pensa: – Posso ir pelo caminho seco e no caminho toda essa sujeira vai secar e cair. E assim você faz. Vai pelo caminho seco. E com pouco tempo de caminhada percebe que sua pele está horrível, seu cabelo está um desastre e ainda falta muito até você encontrar água limpa. Alguns do seu grupo foram pelo caminho de lama, outros que foram com você logo mudaram de opinião e voltaram para pegar o caminho da lama, outros saíram correndo na frente para tentar alcançar logo o final do caminho e encontrar água limpa.

E você? Você não quer sair correndo… Ainda tem dúvidas sobre se quer voltar e ir pelo caminho de lama. E por ter dúvida você pergunta, perguntando é melhor voltar. O caminho da lama me trás uma sujeira, um incomodo que vem do impuro, do pecado, mas lá… Bem… Lá eu não sinto o enrijecer do meu andar por causa da lama que seca, lá eu me mantenho úmido e livre.

Mas a lama já não é tão confortável assim. Alivia. Porém, incomoda.

Durante o caminho da sua vida você se sentirá nesse fluxo de intensidade sem fim, diversão e ironia. Mas em outros momentos se sentirá um lixo. E vai sempre pensar: – Por que que quando eu me vi diante do poço de lama eu não voltei e procurei outro caminho? Por quê?

É melhor continuar…

=D

Ambiente Clean.

 

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Eu me lembro muito bem quando a moda era o “ambiente Clean” e eu já cansei os músculos da boca rindo de ambientes cleans em hall de consultório médico ou em hall de escolas particulares.

Enfim…

Agora, como já dizia minha mãe, estou pagando a língua, não é que o tal clean é visualmente confortável. Faz algum tempo que o plano de fundo da Morgana [Minha Laptop] é branco com alguma imagem ou frase no centro. Bem Clean. E agora resolvi deixar o blog clean também.

Fica visualmente tranquilo, preto no branco, neste caso, verde e/ou vermelho no branco.

Eu gostei… Achei bem clean. HaHAHAHAHAhAHaHA.. E viva as pessoas que conseguem pagar a língua sem sofrimento. =D

sábado, 26 de junho de 2010

Plaquinha do sarcasmo!

 

sarcasmoEssa imagem é de uma das minhas séries favoritas “The Big Bang Theory”. E quem precisa ser avisado sobre possível sarcasmo é o Sheldom, o tapado mais delicious de todos os tempos. =p

Mas não é sobre a série que eu quero falar, é sobre sarcasmo mesmo. Hoje eu acordei sentindo o veneno escorrendo pelo canto da boca. Eu sofro de sarcasmo crônico e tem dias que as crises são terríveis. Hoje foi um desses dias e vejo que deve se estender para amanhã também, pois  nada mudou até agora.

O que seria um dia de crise de sarcasmo? Vamos a ligeira e didática explicação.

Nesse dia eu precisaria realmente de alguém que me conhecesse muito ao meu lado para levantar uma plaquinha cada vez que eu fosse sarcástica e, acreditem, seria quase 80% das vezes que eu falasse. Por que seria necessário uma plaquinha? Porque quando eu estou nesse tipo de crise pessoas desavisadas podem ordinariamente não entender que eu estou fazendo uma piada, podem até mesmo acreditar que estou sendo super sincera e até mesmo carinhosa. O que é um terrível problema caso a pessoa depois perceba que foi sarcasmo sangrento, pois percebendo a pessoa vai me odiar para sempre. Primeiro por perceber que estou rindo dela e segundo por perceber que não conseguiu perceber imediatamente que eu estava rindo dela.

Modéstia a parte, quando estou em dias de crise de sarcasmo crônico sou a melhor. =D

Existem algumas pessoas do meu ‘social’ que tem pavor de mim nesses meus dias de crise de sarcasmo. E volta e meia eu escuto: “Nossa! Como vc eh ruim…” Frase seguida por gargalhadas. Ou, “Quem agüenta você?? Tá doido!”. Ou ainda, “Tem dia que você está inspirada!”.

Mas é sem querer querendo. Vou vendo daqui quantos dias mais vai durar essa crise. Pode ser que dure mais, pois ela costuma se dissolver facilmente quando estou em um bar qualquer destilando veneno para todos os lados e hidratando a garganta com destilados. [Essa foi para você, Déb..] No entanto, estou sem acesso a álcool de todo e qualquer tipo. Vou-me rindo por aqui e me controlando para não extrapolar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ética: Artigo de Luxo.

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Parece brincadeira, mas não é mesmo. Ética hoje em dia é “artigo de luxo”, poucas pessoas podem se dar ao luxo de serem éticas.

O que é ser ético?

O primeiro tópico do dicionário Houaiss diz que ética é “parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social”.

Então poderíamos pensar que ser ético é uma forma de dizer que o que lhe motiva são aspectos positivos da vida, que você está sendo direcionado pelo respeito ao outro, pelo pensar no outro.

Contudo, vejo que as pessoas não estão mais prezando a ética. O lance é quem pode mais, quem é melhor, quem consegue mais, quem é mais ‘massa’, quem é “o cara” e se para ser “o cara” for preciso pisar em algumas cabeças o que tem de mal? Afinal, a característica primordial para que você seja uma pessoa de sucesso é a proatividade. E o que é ser proativo? É antecipar as soluções para os possíveis problemas. Ir na frente, resolver antes que o chefe solicite. Porém, na mentalidade mesquinha das pessoas é o famoso “mostrar serviço”. E se “mostrar serviço” implicar em fazer o serviço do colega e deixá-lo com cara de “o que eu faço agora?” diante do chefe não tem problema, quem mandou ele não ser mais proativo do que você.

E toda essa estratégia para se mostrar proativo é terrivelmente irritante. Principalmente quando você consegue perceber o forjamento da proatividade. Quando a pessoa fica de espreita, observando o que você faz para copiar e ir na frente. Para tomar seu lugar, para ocupar seu espaço. Aí você se phode. Sabe por quê? Porque você resolveu ser ético e mesmo vendo tudo aquilo resolve não acusar seu colega, afinal você não tem provas, só a sua intuição e seu pouco conhecimento do caráter daquela pessoa. Então você fica ético e pobre. Ético e burro. Ético e com a tarja ‘ingênuo’ na testa. Fica com cara de quem pode ser passado para trás o tempo todo.

Ou seja, ser ético hoje em dia é ser idiota. Eu detesto ser idiota, mas detesto a idéia de ser mesquinhamente proativa. Sinceramente, sem querer parecer dramática e já sendo, está muito difícil ser humana nos dias de hoje.

=/

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Psicologia barata: Sobre esperar e cuidar!

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Namorar! Noivar! Casar!

Tudo não passa de uma espera. Você espera encontrar a pessoa ‘certa’ e quando encontra você espera conhecê-la bem e que você combine com ela. Daí você começa a descobrir algo que destrói  muitos relacionamentos, ninguém combina com ninguém, ninguém é igual a ninguém e não existe a tampa que se encaixa perfeitamente a sua panela.

As pessoas são diferentes, todas têm defeitos e ninguém quer ser mudado. Aí sim, quando você descobre isso e consegue fazer com quê o relacionamento sobreviva vem outro tipo de espera… E é de um tipo de longa espera. Você começa a esperar que vocês se adaptem ao jeito de ser um do outro, que consigam lidar com os defeitos um do outro, que tenham o dom da paciência para não gritar todas as vezes que algo que você odeia se manifestar nele. É um exercício de tolerância. Um exercício de alargar garganta para engolir um ou outro sapo de vez em quando.

Mas depois você percebe que tudo isso, toda essa maturidade para ultrapassar essa etapa faz com quê vocês pareçam realmente feitos um para o outro, há mais cumplicidade, há mais o que dizer, há um afago mais demorado, um aconchego no meio da noite fria. E você percebe que aquele sapo que engoliu foi digerido rapidamente, pois os carinhos que surgem por causa do clima de paz ajudam na digestão.

Não estou falando sobre criar ilusões para o outro, nem sobre mulheres que se submetem. Estou falando sobre a arte de conviver, sobre pensar no outro e isso é tarefa dos dois. Estou falando sobre ter conhecimento do que eu faço que aborrece o outro e saber que quando eu o fizer – quiçá, sem querer – o outro estará fazendo um esforço para não explodir, cabe a mim fazer um esforço para não piorar imediatamente a situação.

Não haverá harmonia plena, eu sei. Mas é possível acordar feliz por perceber que o outro, o seu namorado, seu companheiro, seu marido, seu homem tem a capacidade de cuidar de você. E a palavra CUIDAR comporta em si muitas coisas boas.

Dormir-de-conchinha-hummmmmmm Cuidar é montar guarda para que nada atinja aquele que se cuida.

Cuidar é se preocupar se o ser cuidado está bem.

Cuidar é acolher.

Cuidar é estar por perto.

Cuidar é velar, olhar, vigiar para que nada de mal aconteça.

Cuidar também é deixar livre, deixar viver suas experiências.

Cuidar é saber a hora de calar e a hora de falar.

Cuidar é ser leal.

Cuidar é a expressão fiel do amor.

 

Ai que post romântico! xD

domingo, 13 de junho de 2010

Santo Antônio!!

 

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Hoje eu me lembrei de uma época em que minha mãe se preocupava com o fato de eu não ter um namorado. E um pouco com o fato de minha irmã mais nova estar sem namorado. Ela já havia tido um relacionamento que durou um tempo considerável. Eu nunca tinha tido um namorado, exceto um rapaz que eu estava ficando e insistiu que tinha que freqüentar minha casa, mas não durou três meses. Ele era do tipo “eu te amo! - No segundo beijo.” Tá certo que “I’m hot!”, mas não é para tanto. HaHaHAHahAhaHa..

Pois bem, a filha mais velha com 23 anos e sem histórico de namoros. Hummm… Era preocupante. Então me lembro que em 2005 minha cunhada chegou no dia dos namorado – dia anterior ao dia de Sto. Antônio – com duas imagens de biscuit do santo. Uma para mim e outra para minha irmã. Chegou com um tom de ironia, meio que brincando, meio que falando sério… Que talvez assim a gente encontrasse um namorado.

Foi aí que tudo começou… A chantagem com o santo. Sempre achei essa relação chantagiosa com os seres celestes muito engraçada.  É sempre: “Me faça isso que lhe dou aquilo!” “Lhe privo disso, até conseguir o que quero"!

news_33416_big_200906121833358660 O coitado do santo fica em um copo d’água até o namorado surgir ou fica pendurado em algum lugar de cabeça para baixo ou então é arrancado dele o menino jesus em seu colo. E um dia: Tcharam! Eis o namorado.

Minha mãe pendurou os dois santos e por coincidência ou por cansaço do santo – HaHaHaHaHAHa – no mesmo ano eu e minha irmã começamos a namorar os caras com quem estamos até hoje.

Bem… Se essa relação chantagiosa funciona ou não. Não sei! Mas é no mínimo engraçado quando dá certo.

 

E viva o Santo Antônio! Que Deus o livre das maldades das mulheres que procuram por namorado para ela ou para outrem. HiHiHiHi…

domingo, 6 de junho de 2010

Pele e Eletricidade

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Foto: Isabelli Fontana e Ricardo Mansur

Muita coisa há para se entender sobre a conexão das peles: a minha pele e a pele dele.

O arrepio, o desejo e a ânsia. A eletricidade que explode no toque. As vontades que conectam os meus pelos aos seus pelos, os meus poros aos seus poros, minha saliva a sua saliva, o suor…

Enfim… Estou vivenciando a pele.

 

=D

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Assim Disse:

 

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A Não Ser VocêComposição: Marina Lima - Alvin L

Eu vim aqui sem medo
Querendo me render
Dizer que mesmo longe
Eu estava com você
Perdão
Mas não vá trazer
De volta
O que sofri
E aí só
Nos resta inventar
A lua e o mar
Pra nos refletir
E seguir
Hoje eu não quero mais me machucar
Hoje eu não quero me perder
Hoje eu não deixo mais nada importar
A não ser você
Eu não nasci sabendo
Como me arrepender
Eu aprendi vivendo
Amando até doer
Então
Se não vingar
O tempo irá nos redimir
E seguir
Pois hoje eu não quero mais me machucar
Hoje eu não quero me perder
Hoje eu não deixo mais nada importar
A não ser
Você
Perdão
Mas se não vingar
O tempo irá nos redimir
E seguir
Pois hoje eu não quero mais me machucar
Hoje eu não quero me perder
Hoje eu não deixo mais nada importar
A não ser
Você
Hoje eu não quero mais

terça-feira, 1 de junho de 2010

Assim Disse:


Caio Fernando Abreu

TERÇA-FEIRA GORDA

Para Luiz Carlos Góes

De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, lansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.
Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali.
Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. Havia o movimento, dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto. Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa.
O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.
Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.
Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre para dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra.
Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.
Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, e eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.
A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. Sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilete. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho pra lemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.
Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos.
Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai- ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.
Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

[Extraído do Livro Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu]