sábado, 16 de outubro de 2010

Da fidelidade conjugal à Violência: Manutenção da Subordinação.

Pra começar esse post eu quero deixar bem claro que ele não propõe soluções, quero apenas levantar alguns ponto interessantes. Para isso é preciso esclarecer, também, que eu não sou feminista, não sou favorável a perspectivas que vitimizam, não estou lançando juízos de valor, não pretendo dizer quem é bom ou ruim, apresento mais um pouco sobre a estrutura.

Assedio

As minhas últimas leituras são o que fundamentam esse post. E elas são:

- Alguns capítulos de O Contrato Sexual – Carole Pateman;

- Alguns capítulos de Mulheres Invisíveis – Bárbara M. Soares;

- Reli A Dominação Masculina – Pierre Bourdieu;

- Reli A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado – F. Engels.

O que eu tenho a dizer hoje diz respeito a forma como a relação entre homens e mulheres apresentam a maneira como a sociedade é estruturada. As relações de gênero transbordam dominação e poder.

O homem, aquele que conhecemos – da sociedade ocidental – sempre teve prioridade ou era o único a ter acesso a determinadas coisas da vida em sociedade. O conhecimento, a formação e/ou a qualificação por muito tempo foram vistos apenas como algo que só poderiam ser adquiridos pelo homem.

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O único que era considerado indivíduo era o homem, a mulher era apenas uma propriedade do homem. Por que o homem se tornou proprietário da mulher? Há quem diga que houve um momento histórico em que o homem sentiu a necessidade de ter certeza de sua paternidade. Você que está lendo há de convir que só quem tem plena certeza que é genitor do filho é a mãe, o pai sabe que fez sexo com aquela mulher, mas não tem como ter certeza absoluta se foi só ele que o fez. O filho, pode então, ser filho de outro – hoje há o exame de DNA, eu sei, mas até o exame...

Desse modo, para que o homem pudesse ser dono de um filho ele teve que antes ser dono de uma mulher. E é aí que a estrutura de dominação do homem e subordinação da mulher aparece como algo “natural” na sociedade.

Durante a história o homem já utilizou diversas maneiras de exercer poder sobre a mulher e garantir a fidelidade da mesma, para que ele pudesse chamar a criança que ela carregava no ventre de filho. O controle do homem sobre os atos da mulher, a posse do corpo da mulher – até pouco tempo não se considerava violência sexual o homem estuprar sua esposa –, isto é, o direito do homem ser proprietário da mulher. O ritual do casamento cristão apresenta o quadro que ilustra essa situação, quando o pai entrega a filha para o marido vemos uma mulher que só muda de dono. No entanto, continua sob a posse de um homem.

Muitos poderiam ler o que escrevo e pensar: – “Ah! Mas isso já mudou muito…”

Sim! Mudou. Mas ainda há muito o que mudar. Muitas mulheres ainda sofrem todo tipo de violência de homens que querem a todo custo manter a subordinação feminina ao seu desejo.

E esse custo pode não ser nada interessante.

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A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e erradicar a Violência contra a Mulher que ocorreu em 1994 definiu violência contra a mulher como qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Além do mais, no Brasil temos a apelidada Lei Maria da Penha - LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006 – que criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Mas não é por isso que a violência do homem contra a mulher deixará de existir. O problema é muito mais de regras estruturais da sociedade do que de regras legislativas, que dizem o que pode ou não pode fazer, porque se o fizer o Estado irá lhe punir.

Alguns estudiosos chegam a dizer que o propósito desse tipo de violência é controlar as mulheres, direta ou indiretamente, por medo do ataque. Eu diria mais, eu diria que não é necessário que todos os homens batam em suas mulheres, a coragem de alguns poucos de o fazer já cria uma espécie de possibilidade que inibe a ousadia feminina diante do homem por medo de apanhar.

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Penso que grande maioria das mulheres quando começam uma briga com o marido, namorado, noivo ou seja lá o que for, e que essa briga começa a ficar muito quente acaba recuando por medo de apanhar ou só desafia o homem quando está entre outras pessoas. Inibindo a possível reação violenta dele com a possibilidade de uma represália de seu ato violento caso ele resolva tê-lo. Ou então chora, chora muito e se vitimiza para constranger o rapaz.

Mulher tem medo de apanhar sim. E, a parte das leituras que fiz, acho que a maioria das mulheres tem medo de apanhar por causa do jeito que o homem se portar quando a briga esquenta. Ele estufa o peito, cresce para cima da mulher, fala em um tom grave e imperativo, não recua e continua crescendo.

Uma vez presenciei uma briga feia de um casal de amigos meu, depois da briga ela se retirou para o quarto e eu fiquei como o meu amigo na sala, ele pediu desculpas e reclamou que ela não poderia ter começado aquela briga na minha frente, que foi muito constrangedor. Disparei que ela talvez tinha feito aquilo porque precisava dizer tudo aquilo, mas que precisava de proteção. Proteção de quê? – Ele acabou perguntando. E eu disse a ele que para mim toda mulher tinha medo de apanhar. Ele ficou descontente, disse que nunca tocaria nela, que era loucura pensar aquilo. E eu acabei mostrando para ele que mesmo na minha frente ele havia se imposto, ameaçado indiretamente através da postura corporal.

Ele pensou, depois conversamos sobre isso os três, ela pensou e acabamos o papo no boteco, bebendo e teorizando na mesa do bar.

Só que tudo isso não é papo de botequim, é real e perigoso. Pois quando lutamos por leis que protejam as mulheres acabamos lutando contra uma estrutura muito maior do que possamos imaginar. Não posso deixar de concordar com Bourdieu que parte da culpa por isso é a educação que as mulheres – responsabilizadas por educar os filhos – transmitem aos seus filhos. Isso tudo só poderá mudar de verdade quando a maneira de educar nossos filhos se modificar.

Enfim, fica-a-dica:

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2 comentários:

  1. Genial, moça. Adorei a forma como você desenvolveu o assunto.

    Concordo totalmente. As mulheres têm medo de apanhar, sim, mesmo quando não existe esse risco, quando o homem não faria isso. O grito, o estufar de peito, a postura corporal agressiva são coisas que intimidam, e nos fazem lembrar que ele tem mais força física que nós... O que sempre assusta, e em geral faz com que as mulheres ou recuem, ou saiam do lugar onde estão ou abram o berreiro...

    Beijos,
    Deb.

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