terça-feira, 3 de agosto de 2010

Conto nº 3 – Ela que Volte Caminhando



Ela entrou na sala, eu já a havia conhecido há alguns anos atrás, rapidamente. Sinceramente, fiquei muito surpreso, como pode alguém mudar tanto assim, parecia outra pessoa, só tive a real certeza de que se tratava da mesma quando alguém disse seu nome. Ela parou na porta da varanda, meio sem graça, meio sem jeito e sorriu, anunciou uma boa noite e foi até seu querido amigo abraçá-lo. Um abraço demorado. Causou em mim inveja.

Ela estava ainda mais bela, sorridente, iluminada. Senti a necessidade de fazê-la me notar, lembrar de mim, me olhar. Então me levantei e ofereci-lhe uvas. Ora essa, uvas? Como eu fui estúpido. Mas ela aceitou, tirou-as delicadamente do cacho e colocou uma em sua boca – Oh! Que linda boca! – mas durante o percurso entre a uva e a boca ela disse: “De onde vem essa uva?” Eu não consegui responder, não consegui dizer que veio da cidade da uva, que eram uvas especiais, disse apenas “eu as trouxe”. E ela respondeu, finalizando a conversa “obrigada!”.

Fitei-a por um longo tempo, era momento de reencontro, todos sorriam e ela sempre conseguiu aconchegar, nisso ela não havia mudado, ela aconchegava a todos pelos quais passava com um abraço, um carinho, um sorriso.

A madrugada foi... Foi... Sem parar. Eu já estava com sono, mas ainda poderia ter uma oportunidade de aproximar a minha boca daquela linda boca.

Na mesa do jantar, onde agora fazíamos nossas brincadeiras, aproximei-me mais dela. E depois das gargalhadas várias pessoas começaram a se manifestar para irem para casa. E ela disse “tenho que ir, pois tenho que pedir alguém da minha casa para vir me buscar, eu não posso ficar até tão tarde”. Aí estava minha outra oportunidade, talvez a única e final, então eu disparei “não se preocupe, eu a levo em casa”. Talvez no caminho a gente conversasse mais, talvez eu pudesse tocá-la suavemente, talvez eu conseguisse alcançar aquela boca. Esse ‘talvez’ encheu minha face de luz e meu sorriso de expectador enlargueceu-se, o fardo do sono ficou leve.

Continuaram as brincadeiras... Eu já estava cansado, mas prometera levá-la em casa. E não poderia perder a oportunidade. Foi quando entre uma brincadeira e outra, ela muito desprendida disse a alguém “eu me considero casada”. Não sei a que ela respondera. Mas ela disse ser casada!? Minha luz apagou, o cansaço que já estava sobre meus ombros pesou como dez pianos.

Levantei-me como um zumbi e me despedi pensando “ela que volte para casa caminhando”.

***

2 comentários:

  1. É, uma grande oportunidade foi perdida aí. Ser casada, não significa estar fechada a aventuras, quem sabe até onde! Podia ser uma forma de se proteger de outros senão não teria aceito a carona. Eu a levaria, mesmo que desse em nada. Teria o prazer da viagem e da companhia.

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