quinta-feira, 26 de agosto de 2010

[BlogTerapia] Eu ando pelo mundo!


Foto: Arquivo Pessoal

Quando eu era bem pequena [mas já me entendia por gente] minha mãe me contou uma história sobre mim. Ela dizia que eu tinha nascido feia e que ela tinha vergonha das reações das pessoas diante de mim. Nunca esperou que dissessem “Oh! Que criança linda” quando andasse pela rua comigo. No entanto, um dia uma mulher que teria sido lavadeira uma ou duas vezes lá em casa a encontrou na rua com o novo bebê e disse: “Que menina linda, iluminada, você vai perder essa menina logo, ela é um anjo!” Minha mãe disse que no dia voltou para casa muito assustada, pois de acordo com ela aquela mulher era macumbeira. E mesmo que os cristãos insistam em dizer que não acreditem em “macumba” sempre acreditam que as pessoas que a praticam possuem algum tipo de poder sobrenatural. No fim, minha mãe terminou a história dizendo que aquela louca mulher mentira e que eu estava viva, não era um anjo.
Talvez aquela mulher tivesse razão parcial em dizer que minha mãe iria me perder logo, pois foi exatamente isso que ocorreu, logo percebi que eu não era dessas bandas de cá, não me identificava, não pertencia, não sei de onde sou, não sei onde encontrar beleza, e  isso não é estritamente  conclusões inspiradas na maiêutica. Sinto a cada dia mais que não estou por perto dos meus amigos, que as almas que me são caras não estão perto de mim, que fui lançada em um lugar sozinha, exilada dos meus. Loucura, mistificação da própria vida? Não sei, só sei que sinto isso a muito. E sentia cada vez mais, a cada vez que eu conhecia pessoas novas e elas diziam “de onde você é? Você não é daqui, é?” e eu repetidamente dizia, “sim, sou daqui, nascida e criada”. Algumas vezes cheguei a indagar o por quê dessa dúvida de que se eu me tratava de alguém das gerais, não das minas ou de algum lugar mais ao sul do país, como sempre insinuaram que eu fosse, mas eu não tive resposta satisfatória.
Não consigo sentir que tenho uma ligação afetiva extra-corporal com as pessoas as quais convivo. Sinto-me deslocada, fora do eixo e isso constantemente me desestimula. Seria algo que eu construí por causa dessa historinha que minha mãe contara sobre a bebê feia que foi vista pela macumbeira como um anjo na terra? Não sei.
Eu sei que a cada nova quase-morte [já foram duas – reais] eu sinto isso de maneira mais forte, o amor da minha vida não é minha alma gêmea; meus pais, irmãos, tios, avós, primos e amigos não são almas afins. Eu não sinto isso. Não me sinto posicionada dentro dessa trama que é minha vida.
Talvez tudo isso seja balela inventada por uma mente fértil e delirante. E se o for, lhe garanto, é totalmente persuasivo, pois eu sinto.

4 comentários:

  1. Até onde voce (se des)escreve é verdade ou não, eu não sei, mas se houver um desabafo aqui, posso lhe dizer com segurança que a mulher "macumbeira" tinha razão. As vezes não vemos o que estamos fazendo, é nosso trabalho de anjo,inconsciente na maioria das vezes. E beleza, não é aquela apenas idealisada pelos padrões europeus.Se o fosse, eu estaria morto. Mas não se preocupe, a natureza sempre dá uma compensação para algo que tenha dado de menos. Procure... esta aí.

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  2. Não, não, meu querido. Eu não me acho feia. Eu era uma bebê feia, minha mãe tinha razão, mas sabe a tal história do patinho feio?? HauHauAHua.. Tornei-me uma delícia.
    Mas enfim.. o desabafo não é bem sobre beleza e tal, é sobre não-reencontro.

    Até mais.

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  3. "HauHauAHua.. Tornei-me uma delícia." Pegou fogo minha imaginação...
    O encontrar e se perder é uma constante em nossas vidas... perdi as contas de quantas vezes fiquei com "fantastiquite": De onde vim, por que vim, para onde vou... quem sou... etc.
    Com o tempo isso passa e descobrimos que não nos encontraremos nunca. UUUhhhhmmmmm!!! DELÍCIA!

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  4. Minha linda

    Você é um ser-do-mundo. Isso é bom...

    Mas traz também o outro lado... o eterno sentimento de inadequação, de não se sentir "pertencente" a lugar algum. Ser de todos e não ser completamente de nenhum (nem de ninguém).

    A "macumbeira" estava correta, de certa forma. Só que o que a intuição lhe falou, a mente não tinha capacidade de compreender... Ela viu que você era diferente e especial. E que a sua mãe ia te perder... Só que não era literalmente, não por uma questão de vida ou morte. Mas sim de posturas diante da vida e das pessoas que estão nela.

    Você é um espírito livre... e isso às vezes é angustiante, né?

    Mas sinto dizer que não há retrocesso nessa coisa. A gente é assim e ponto. Negócio é aprender a lidar com isso da melhor forma possível.

    E ganhar o mundo. Isso vai te fazer bem.

    Beijos!
    Deb.

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