domingo, 21 de fevereiro de 2010

O que são os sonhos?

“Vou-me embora pra Pasárgada,
Aqui eu não sou feliz,
Lá a existência é uma aventura!”

Manuel Bandeira

sonho

Sonhei com ele chorando e muito triste, sonhei que lhe dava banho delicadamente. E acordei com um grande pesar. E esses sonhos bobos me inquietam, pois causam em mim um tipo de “é hora de lembrar que há sentimentos em você que podem estar aparentemente ocultos, mas existem”. Lágrimas e o banho. Quem já deu banho em um bebê [eu já o fiz] pode descrever a sensação de cuidar de alguém tão preciosamente, tão minusciosamente, tão delicadamente que está nesse ato de dar banho. É como se ao dar banho em alguém você a possuísse por um delicado momento, talvez seja por dar banho em suas crianças tantas vezes que a mãe acredita realmente que é dona delas e, dessa maneira, dos seus destinos.

Até onde o sonho é fantasia e até onde ele é um pouco de realidade que está por aí… Acontecendo realmente.

É quaresma para os cristãos… O período entre o fim do carnaval até a sexta-feira da paixão que antecede o domingo de páscoa. Lembro-me dos pesadelos terríveis que eu tinha no período da quaresma quando eu era criança… Cidades sertanejas, como a que vivo, têm muitas histórias fantásticas sobre bichos híbridos, monstros, fantasmas; seres de um mundo particular. O mundo do medo, do pavor, do “vá dormir, senão a cuca te pega”. E essas histórias eram contadas por senhoras e senhores, avós e avôs, no período da quaresma.

mula Eu tinha muito medo, muito mesmo… E tive medo até o que hoje se chama de pré-adolescência, por volta dos 12, 13. Acredito que um jovem dessa idade hoje diria que eu era uma idiota por ter medo de monstros fantásticos com essa idade. Eu ia dormir com medo, no escuro do quarto via vultos, ouvia barulhos, escutava o som das baforadas dos monstros que se aproximavam e dormia tensa, esperando sentir o toque por cima da coberta. Pois por baixo da coberta ele não me alcançaria nunca, pois eu embutia o pano totalmente por baixo do meu corpo e não deixava uma brecha sequer, para que nem uma mínima particula alcançasse minha pele. E dormia… E sonhava com esses monstros, esses híbridos, meio cavalo, meio lobo, meio onça, meio alguma-coisa sempre. Nunca era algo por inteiro, ora sobrava ora faltava. Faltava cabeça, faltava vida, faltava…

Ninguém mais me conta histórias fantásticas na quaresma. Dona Jandira [a moradora de minha rua que melhor contava tais histórias] há muito tempo morreu. E por aqui, não existem mais senhoras que sentam a beira da fogueira com crianças para contar histórias que aconteceram na quaresma passada com o filho da prima da tia de criação dela. Não há mais fogueiras na rua e nem mesmo crianças depois do anoitecer. A noite agora é povoada por outros monstros, monstros reais, que causam medos visíveis. Medos que cobertas embutidas sob nosso corpo não conseguem nos proteger deles. O medo de hoje, na quaresma ou não, é da arma do menino que vende a droga no quarteirão ao lado. O medo é do menino entupido de crack que passa pela rua para chegar até o ponto da droga. O medo não é de bichos híbridos, desses… Ora essa! Desses as crianças de hoje fazem graça.

Eu queria que as crianças de hoje pudessem ter medo dos bichos híbridos que aparecem na quaresma. Mas esses bichos, monstros e fantasmas, até eles, fugiram para bem longe. Pois tiveram medo da violência que existe na cidade grande e que não avisa sua chegada com estalos e baforadas.

Um comentário:

  1. LIndinha... Como vc escreve bem. Uma leveza....
    Os monstros estão com medo de nós. Problema Antropomorfológico. Né?

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