domingo, 24 de janeiro de 2010

Assim disse:

 

 

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Feminina

[Mário de Sá-Carneiro]

Eu queria ser mulher para poder me estender ao lado dos meus amigos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para poder passar pó de arroz pelo meu rosto diante de todos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida...
Conhecer muitos velhos, a quem eu pedisse dinheiro.
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro falando de modas, fazendo fofocas, muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios, aguçá-los ao espelho antes de me deitar.
Eu queria ser mulher para que me fosse bem todos esses ílios. Esses ílios que no homem, francamente não se pode desculpar.
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes, e enganá-los, a todos, mesmo ao predileto.
Como eu gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto, o mais bonito. Enganá-lo com um rapaz gordo, feio e de modos extravagantes.
Eu queria ser mulher para excitar quem me olha.
Eu queria ser mulher para poder me recusar.

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