terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Conto nº 2: Feiticeira do Asfalto.





A conheci há alguns dias atrás. Não parece ser alguém que tenha vindo de um universo paralelo qualquer. Quando a conheci tinha a pele rosada e sorriso largo. Não tinha anéis nos dedos e nem grampos nos cabelos. Parecia ser capaz de se divertir com muito pouco. Mas pelo o que me parece aquela não era bem ela, acredito que naquele dia eu não a vi realmente, deveria estar escondida por um feitiço simpático.
Hoje ela passou por mim como se eu não existisse no mundo dela. Alta, forte, sisuda e solitária. Parecia contar os passos para não se perder pelo caminho. Queria poder ler seus pensamentos, mas sou apenas um mortal.
Eu diria que hoje seus cabelos foram penteados/arrumados por uma fada. Cada fio que lhe cai sobre o rosto e as costas parece ter sido posicionado estrategicamente. Sua pele está empalidecida, com um pouco de carmim nas maças do rosto e na boca. Os olhos firmes e perdidos, como se procurasse entre o limiar dos mundos uma brecha para espiar o que acontece do lado de lá. Houve momentos que acreditei que ela o conseguiu, pois vez ou outra - com o olhar pousado no nada - vi surgir um sorriso tímido em sua face, aquele tipo de sorriso que só acontece quando se compartilha algo com outro.
Ainda me parece um mistério. Uma mulher que instiga, atiça fogo e de repente tenta passar desapercebida. Mas é nesse momento que ela se torna mais evidente. Uma feiticeira, Senhora que vive entre dois universos paralelos, que sonha em estar lá quando aqui está e se contorce de saudades de cá quando é lá que está descansando.
Particularmente hoje, pareceu-me que ela estava nos dois lugares ao mesmo tempo. Lá e cá. Pois não tinha aquele sorriso largo plenamente e nem se permitia ser absolutamente rígida.
Que venham os próximos dias de encontros casuais e que eu consiga conhecer um pouco mais dessa feiticeira do asfalto.

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