terça-feira, 11 de abril de 2017

[BBB17 - Marcos Expulso] Onde a sororidade acha obstáculo?


Sororidade: lat. soror,óris 'irmã, parente de sangue; companheira'.


Em italiano, a palavra para irmã é sorella - seguindo o radical latino soror.
Contudo, o que é sororidade dentro do movimento feminista? Qual é o uso comum que tem sido feito dessa palavra?  Essa palavra é utilizada, ao meu ver, com dois grandes objetivos: 1) unir as mulheres para que elas defendam-se mutuamente quando se trata da dominação e abusos do patriarcado que recai sobre nós e 2) desestimular a rivalidade entre as mulheres.


Dito isto, começo o texto com uma experiência particular, ilustrativa para que compreendam meu ponto aqui. Contarei a história de uma situação que vivenciei uma única vez  - se a situação voltar ao meu olhar, tenho certeza que voltarei a vivenciá-la quantas vezes forem necessárias. 

Eu estava saindo de uma faculdade na minha cidade e ao chegar onde eu havia estacionado meu veículo - um lugar com pouquíssima luminosidade - havia um casal que estava conversando de uma forma agressiva. Ele estava com os braços ao redor do corpo dela - como um abraço - prendendo-a e ela estava com os braços dobrados, junto ao próprio corpo, em posição de defesa, pedindo que ele a soltasse para conversarem e tentando empurrá-lo com o antebraço. Ela não gritava, ele também não. Mas ele a mantinha presa pedindo explicações sobre alguma situação. Quem via de longe poderia considerar que era uma conversa corriqueira, mas não era. Ela falava baixo e empurrava, dizia "por favor, me solta, vamos conversar direito". Eu pensei um milhão de vezes o que eu deveria fazer, desde o momento que entendi o que estava acontecendo. Decidi por interromper aquilo, fui até o casal, fiquei há dois passos largos dela e dele, e falei amigavelmente: - Moça, faz favor aqui. (meu coração se agita só de lembrar daquele dia - é difícil tomar essa decisão, principalmente quando estamos sozinhas, era apenas eu e dois desconhecidos em um estacionamento escuro - também tive medo do que ele poderia fazer). Ela olhou para trás assustada, ele me olhou e respondeu que ela não iria. Eu dei um pequeno passo para frente e disse, ainda amigável, apontando para ela: - Eu quero falar com ela. Por favor, moça, vem aqui falar comigo. Ela olhava para mim e para ele, não falava nada, mas começou a lacrimejar. Foi quando eu falei em tom impositivo: - Solta ela, pois EU VOU FALAR COM ELA. Ele se manteve firme e com um olhar desafiador. Ela olhou para ele e lacrimejando falou: - Deixa eu ir lá.  Ela veio até mim, eu segurava o choro, ela lacrimejava e eu falei segurando suas mãos: - Você não precisa passar por isso. Você não precisa. Quer sair daqui? Você está bem?  Ela apenas balançava a cabeça positivamente e disse que estava bem. Não quis sair dali, disse que iria conversar com ele ainda. Eu perguntei se podia abraçá-la, ela permitiu. No meu abraço ela deu um forte suspiro, meus olhos encheram d'água, mas eu fui embora com uma dor no peito tremenda, chorando de mansinho pelo caminho. Até onde eu conseguia vê-la, durante a minha saída, ela continuou conversando com ele em certa distância, mas o resto, o resto eu não sei. 

***

Essa história já tem muito mais do que um ano de acontecida. Contudo, quis trazê-la a baila por causa do famigerado caso do BBB17, com os personagens Emilly e Marcos. Acompanhei tudo pelo twitter e ontem eu assisti o programa na TV - vi o anúncio ao vivo da expulsão (ainda acompanhando o twitter) - e vi o desespero da Emilly ao saber que ela foi considerada agredida, que ela estava sofrendo abusos que se enquadram na chamada Lei Maria da Penha (Lei 11.340 de 2006), que ele poderia pensar que ela o havia prejudicado. 
Quando eu interrompi o casal na história acima, eu senti que eu havia envergonhado a garota, pois eu expus o que talvez ela não queria expor quando não gritou ou fez escândalo para que o rapaz a soltasse. Eu trouxe a tona o abuso e, acredito, deve ser muito difícil aceitar que a pessoa por quem você está apaixonada está sendo abusiva (como também é difícil aceitar que sua mãe ou seu pai está sendo abusivo). É a dor que se mistura com a paixão (amor) e parece ser vergonhoso amar quem tanto nos faz mal e nos machuca. Emilly segue declarando que nada aconteceu, que não quer fazer mal a ele e que ela sabe que ele nunca a machucaria. Quantas mulheres deixam de denunciar para não fazer mal ao homem que acredita amar? Quantas deixam de denunciar pela vergonha de ser vista como a otária que escolheu o abuso? Ou por acreditar que se houver amor, a Fera ainda vai virar o príncipe da Bela? Quantas morrem por manter essas posturas? 
A produção do programa não fez mais do que sua obrigação, era necessário resguardar a integridade física das mulheres dentro da casa. O Marcos realmente ameaçava essa integridade. 

Entretanto, o que mais me incomodou no twitter foram as mulheres culpando a Emilly e outras ironizando o apoio que as outras duas personagens do programa tentavam dar à Emilly. 

Ao culpar a Emilly, dizem que ela o provocava, que ela era louca e obsessiva, que tudo que ele fez foi uma resposta a pressão que ela vinha fazendo para que ele não fosse visto como um banana e a defendesse. Daí parece que para deixar de ser banana ele passou a ser agressivo não só com quem ela queria que ele fosse, mas também com ela mesma. Com essa linha de pensamento, as pessoas ironizavam o fato de ela ter colhido o que plantou. No entanto, as pessoas que falam sobre isso parecem esquecer que existe uma lei que protege as mulheres das diversas formas de violência e que foi baseada nesta lei e em denuncias anônimas de agressão à ofendida que a justiça precisou sim, meter a colher em briga de marido e mulher. Em caso de violência doméstica - contra mulheres, inclusive - havendo denuncia anônima, ao verificar a denuncia a polícia procurará por indícios de abusos, sobretudo de agressão física, pois esta não precisa ser denunciada pela ofendida para que seja registrada a ocorrência. A Lei Maria da Penha age como uma lei de 'tutela especial', que visa proteger uma população específica por esta sofrer com atitudes que estão vinculadas à cultura da sociedade. Já o Marcos, se ele se sentiu ofendido em algum momento, deveria ter denunciado, pois ele - por não se enquadrar em qualquer perfil de minoria - não possui 'tutela especial' do Estado. 

Portanto, as atitudes da Emilly não justificam as atitudes do Marcos, a lei não lida com "estamos quites".Emilly não é culpada, a culpada pela expulsão do Marcos é a Lei Maria da Penha. 


As pessoas que ironizavam o apoio que as outras mulheres tentavam dar à Emilly não estavam erradas em uma coisa, houve apoio presencial, mas quando estavam distantes da Emilly, Ieda fez comentários machistas com Vivian que buscavam justificar os abusos sofridos pela menina e, todas afirmam, a Vivian nunca gostou da Emilly. A sororidade é uma prática complicada. E ao falar que não houve sororidade, parece que as pessoas esperam que quem pratica sororidade seja perfeita. Que ela não esteja confusa sobre o que aconteceu ou que ela tenha um amor incondicional tão grande pelas outras mulheres que as defenderá de forma absoluta. Porém, a sororidade tem um grande obstáculo: o afeto. E considero que a identificação absoluta com a Emilly e a defesa incondicional por parte das outras duas mulheres que estão com ela naquela casa não seria possível, pois elas não se amam. E ainda, elas estão em um jogo em disputa por uma grande quantia de dinheiro - o que dificulta a aproximação afetiva das pessoas em tão pouco tempo. 
O Big Brother Brasil não imita a vida real, na vida real temos tempo e liberdade para escolher nossos afetos.

Acreditar piamente que Ieda e Vivian deveriam amar incondicionalmente a Emilly a partir da situação trágica ocorrida é insano. É quase o mesmo que leitoras ou leitores lessem a história que contei acima e começassem a me repreender por não ter salvado aquela menina do seu namorado, ou começassem a me criticar dizendo que fiz muito pouco por aquela menina. Eu fiz o que eu poderia fazer, eu agi com a medida da intimidade que eu tinha com aquela menina; não consegui avançar mais e 'salvar' aquela moça da conversa agressiva com o namorado, ela fez a escolha dela, escolha que eu considero errada, cega, mas eu não pude obrigá-la a ver como eu via, isso não quer dizer que eu não pratiquei sororidade. Ao apoiar a Emilly, Ieda e Vivian agiram com sororidade sim, mas isso não quer dizer que elas também não possam estar confusas sobre o que aconteceu ou que não irão fazer julgamentos. A prática de qualquer nova atitude é vagarosa. 


Além do mais, como eu já afirmei acima: a medida da sororidade que conseguimos praticar esbarra no afeto que conseguimos ter pela irmã que precisa de nosso apoio. É difícil apoiar incondicionalmente uma pessoa desconhecida. É mais fácil quando é alguém que a gente ama, pois eu garanto a você que se aquela garota que abracei no estacionamento da faculdade fosse uma das minhas mulheres - das mulheres que eu amo - ela não teria ficado ali, ela teria ido para casa comigo. Pois a medida da minha sororidade, infelizmente, é o meu afeto e minha intimidade. 


quinta-feira, 2 de março de 2017

Carta para a eu-adolescente há 20 anos atrás: devaneios de gorda




Minha querida eu-adolescente do passado,

Escrevo essas mal-traçadas linhas para lhe dizer muitas coisas que ficaram aqui no meu coração. Como eu tenho vontade de lhe encontrar, lhe abraçar e lhe dizer tudo que eu sei hoje para que você não se sentisse tão sozinha, sem amor, estranha e pejorativamente gorda. 

Você é linda, sabia?! Não sabe. Eu me lembro como era difícil me olhar no espelho e ver beleza mesmo quando estava arrumada. Você sabe como é isso! A dificuldade em aceitar a imagem que estava nas fotografias reveladas. Gorda de óculos. Uma piada ambulante, que ataca antes de ser atacada. Rude e cheia de sarcasmo. 
Era medo, eu sei, hoje eu sei. Medo de ficar sozinha. Medo de não ser aceita. O que você tanto temeu nunca aconteceu nesses vinte anos, você sempre teve amigos e amigas. Mesmo quando você tentou afastá-las, foi chata e grossa, essas pessoas continuaram amando você. Você é amada gratuitamente, não precisa se esforçar tanto.
Porém, essa carta é para falar sobre o seu corpo. É um lindo corpo em formação, acredite nisso. Não aceite fazer aquela dieta milagrosa da revista e nem vá, nunca vá, ao endocrinologista para que lhe receitem inibidores de apetite. Forçar a restrição não vai lhe ajudar em nada, o seu maior problema está nos hábitos alimentares de sua casa, que é um hábito regional: muito sal, muita gordura, muito açúcar e muito pão. 
E mais, você nunca irá conseguir pesar 60 kg, NUNCA! Isso não é possível por causa da sua estrutura. Você é um garota grande! Respeite isso! Pare de se importar por vestir 40 ou 42. Você não caberá no jeans 38. Pare de comprar aquela calça jeans 40 com forma pequena e deitar na cama para abotoá-la. Se ela fechou apertada na loja, compre uma maior. Vestir a 42 não lhe faz feia.  Pare de achar que você está muito gorda, porque pesa 82 kg, você tem 1.75 m de altura e ossatura larga. Sua estrutura é essa, você é grande. Sabe qual foi o menor peso que você alcançou na vida? Com inibidores de apetite combinados com dieta restritiva e exercícios? 72 kg e se sentiu fraca. E você não conseguiu emagrecer mais, por mais que você comesse menos e menos.
Não faça isso com você mesma! Aceite seu corpo de menina em desenvolvimento, aceite a gordura e flacidez de corpo de mulher que avolumam seu corpo. Você não tem o biotipo da sua mãe, não a ouça; a propósito, não ouça ninguém quando o assunto for o seu corpo. A boa vontade deles em "cuidar" de você é agressão velada. NUNCA ACEITE ESSA AGRESSÃO! 
Sabe o que dizem hoje, aqui no futuro, quando olham suas fotos de adolescente? Que você estava tão magra e linda. Isso dói, pois hoje, aqui no futuro, você pesa 113 kg e desistiu de dietas restritivas e qualquer receita mágica de emagrecimento. E você, no futuro, sabe que você adolescente, ouvirá dessas mesmas pessoas que elogiam sua "boa forma" adolescente que você precisa ir ao médico, pois está muito gorda. Isso dói, pois ninguém nunca dirá que você está linda, com o corpo ótimo e que não precisa emagrecer, mas apenas manter os exercícios que você já faz (continue andando de bicicleta - vá a todos os lugares possíveis de bicicleta) e buscar se alimentar um pouco melhor. 

E o seu romantismo, como é difícil para mim lembrar do seu romantismo de menina que acreditava que precisava ser salva desse mal chamado "gorda". Ansiedade, compulsividade por doce, tudo isso para saciar a tristeza da rejeição amorosa. Se você não destruir sua gordofobia, seu pavor de ser gorda, seu medo de não ser aceita e amada por ser gorda; vai doer tanto, vai piorar tanto, vai machucar cada dia mais. Serão 20 anos chorando por não conseguir deixar de ser gorda. 
E de quê adiantará? Lá no futuro, de onde escrevo essa carta, você será de fato gorda; obesa, na verdade. A rejeitada calça 42 se tornou 50. Aquele vestido G que você tinha vergonha de comprar, pois era G de gorda, a gorda do futuro sonhará em usá-lo e rodará a cidade quase toda, de loja em loja para encontrar um vestido que caiba e lhe deixe bonita com suas curvas de gorda (pagará caro por ele).

Sabe essa ilusão que você tem na sua cabeça, ilusão de conto de fadas, de que se você encontrar o amor da sua vida, sua alma gêmea, você emagrecerá quase instantaneamente, como se a gordura fosse um tipo de maldição da bruxa malvada que se dissiparia com o beijo de amor verdadeiro? Isso nunca acontecerá, você encontrou o amor, encontrou quem lhe amasse de várias formas, com afetos distintos, paixões diversas, da mais carnal à mais sublime e a maldição mostrou-se inexistente. Você não precisa de Príncipe Encantado, você precisa de você. Eu imploro, me ouça! Eu sei que você é cabeça dura e não costuma engolir ordens facilmente, mas eu estou suplicando, não seja gordofobica conosco. 
Eu estou feliz com o que eu sou hoje e com as escolhas que tenho feito na minha vida. Tenho provocado constantemente meu despertar para novas formas de pensar e sentir o mundo e você faz parte disso tudo. Entretanto, ainda me dói lembrar o seu sofrimento, os seus poemas melancólicos, seus bilhetinhos escondidos afirmando o quanto se sentia sozinha e rejeitada. Dor faz parte da vida, você viverá algumas, mas não quero que essa seja um dor crônica, não quero!

Levanta a cabeça, menina! Você é linda e será ainda mais no futuro... 

Com amor real e pleno,
você no futuro.