quinta-feira, 2 de março de 2017

Carta para a eu-adolescente há 20 anos atrás: devaneios de gorda




Minha querida eu-adolescente do passado,

Escrevo essas mal-traçadas linhas para lhe dizer muitas coisas que ficaram aqui no meu coração. Como eu tenho vontade de lhe encontrar, lhe abraçar e lhe dizer tudo que eu sei hoje para que você não se sentisse tão sozinha, sem amor, estranha e pejorativamente gorda. 

Você é linda, sabia?! Não sabe. Eu me lembro como era difícil me olhar no espelho e ver beleza mesmo quando estava arrumada. Você sabe como é isso! A dificuldade em aceitar a imagem que estava nas fotografias reveladas. Gorda de óculos. Uma piada ambulante, que ataca antes de ser atacada. Rude e cheia de sarcasmo. 
Era medo, eu sei, hoje eu sei. Medo de ficar sozinha. Medo de não ser aceita. O que você tanto temeu nunca aconteceu nesses vinte anos, você sempre teve amigos e amigas. Mesmo quando você tentou afastá-las, foi chata e grossa, essas pessoas continuaram amando você. Você é amada gratuitamente, não precisa se esforçar tanto.
Porém, essa carta é para falar sobre o seu corpo. É um lindo corpo em formação, acredite nisso. Não aceite fazer aquela dieta milagrosa da revista e nem vá, nunca vá, ao endocrinologista para que lhe receitem inibidores de apetite. Forçar a restrição não vai lhe ajudar em nada, o seu maior problema está nos hábitos alimentares de sua casa, que é um hábito regional: muito sal, muita gordura, muito açúcar e muito pão. 
E mais, você nunca irá conseguir pesar 60 kg, NUNCA! Isso não é possível por causa da sua estrutura. Você é um garota grande! Respeite isso! Pare de se importar por vestir 40 ou 42. Você não caberá no jeans 38. Pare de comprar aquela calça jeans 40 com forma pequena e deitar na cama para abotoá-la. Se ela fechou apertada na loja, compre uma maior. Vestir a 42 não lhe faz feia.  Pare de achar que você está muito gorda, porque pesa 82 kg, você tem 1.75 m de altura e ossatura larga. Sua estrutura é essa, você é grande. Sabe qual foi o menor peso que você alcançou na vida? Com inibidores de apetite combinados com dieta restritiva e exercícios? 72 kg e se sentiu fraca. E você não conseguiu emagrecer mais, por mais que você comesse menos e menos.
Não faça isso com você mesma! Aceite seu corpo de menina em desenvolvimento, aceite a gordura e flacidez de corpo de mulher que avolumam seu corpo. Você não tem o biotipo da sua mãe, não a ouça; a propósito, não ouça ninguém quando o assunto for o seu corpo. A boa vontade deles em "cuidar" de você é agressão velada. NUNCA ACEITE ESSA AGRESSÃO! 
Sabe o que dizem hoje, aqui no futuro, quando olham suas fotos de adolescente? Que você estava tão magra e linda. Isso dói, pois hoje, aqui no futuro, você pesa 113 kg e desistiu de dietas restritivas e qualquer receita mágica de emagrecimento. E você, no futuro, sabe que você adolescente, ouvirá dessas mesmas pessoas que elogiam sua "boa forma" adolescente que você precisa ir ao médico, pois está muito gorda. Isso dói, pois ninguém nunca dirá que você está linda, com o corpo ótimo e que não precisa emagrecer, mas apenas manter os exercícios que você já faz (continue andando de bicicleta - vá a todos os lugares possíveis de bicicleta) e buscar se alimentar um pouco melhor. 

E o seu romantismo, como é difícil para mim lembrar do seu romantismo de menina que acreditava que precisava ser salva desse mal chamado "gorda". Ansiedade, compulsividade por doce, tudo isso para saciar a tristeza da rejeição amorosa. Se você não destruir sua gordofobia, seu pavor de ser gorda, seu medo de não ser aceita e amada por ser gorda; vai doer tanto, vai piorar tanto, vai machucar cada dia mais. Serão 20 anos chorando por não conseguir deixar de ser gorda. 
E de quê adiantará? Lá no futuro, de onde escrevo essa carta, você será de fato gorda; obesa, na verdade. A rejeitada calça 42 se tornou 50. Aquele vestido G que você tinha vergonha de comprar, pois era G de gorda, a gorda do futuro sonhará em usá-lo e rodará a cidade quase toda, de loja em loja para encontrar um vestido que caiba e lhe deixe bonita com suas curvas de gorda (pagará caro por ele).

Sabe essa ilusão que você tem na sua cabeça, ilusão de conto de fadas, de que se você encontrar o amor da sua vida, sua alma gêmea, você emagrecerá quase instantaneamente, como se a gordura fosse um tipo de maldição da bruxa malvada que se dissiparia com o beijo de amor verdadeiro? Isso nunca acontecerá, você encontrou o amor, encontrou quem lhe amasse de várias formas, com afetos distintos, paixões diversas, da mais carnal à mais sublime e a maldição mostrou-se inexistente. Você não precisa de Príncipe Encantado, você precisa de você. Eu imploro, me ouça! Eu sei que você é cabeça dura e não costuma engolir ordens facilmente, mas eu estou suplicando, não seja gordofobica conosco. 
Eu estou feliz com o que eu sou hoje e com as escolhas que tenho feito na minha vida. Tenho provocado constantemente meu despertar para novas formas de pensar e sentir o mundo e você faz parte disso tudo. Entretanto, ainda me dói lembrar o seu sofrimento, os seus poemas melancólicos, seus bilhetinhos escondidos afirmando o quanto se sentia sozinha e rejeitada. Dor faz parte da vida, você viverá algumas, mas não quero que essa seja um dor crônica, não quero!

Levanta a cabeça, menina! Você é linda e será ainda mais no futuro... 

Com amor real e pleno,
você no futuro. 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Look But Don't Touch": educar para o combate

Quando se trata de ser mulher e feminista, tem dois assuntos que rondam frequentemente minha cabeça, sendo eles: educar crianças feministas e manter-se fortes diante das escolhas feitas, com consciência de suas consequências. 
Ser feminista não será fácil ainda por muito tempo, sobretudo pelas constantes confusões que são feitas acerca do que é ser feminista. Não vou explicar isso agora, pois não é foco do texto, mas feminismo não é antônimo de machismo, opõe-se a ele, mas não é ele ao contrário. 

Este texto tem como fim refletir um pouco sobre educar crianças feministas, principalmente meninas - apesar de considerar o educar meninos feministas uma tarefa árdua, pois há muito mais a que se enfrentar ao optar, por exemplo, em comprar uma cozinha de brinquedo para um menino ou ao ensiná-lo que fazer carinho e cuidar de quem ama é importante. Refletirei também sobre a postura combativa assumida por várias mulheres diariamente. 
O ponto forte dessas reflexão é ensinar as crianças a compreender o mundo em que vivemos e combater considerando as consequências dos seus atos; é preciso prever as consequências e se munir para o combate. Isso ficou muito claro para mim quando ouvi uma mulher falando em uma entrevista como se comportava para se sentir empoderava e eu identifiquei o que eu também sempre fiz - de forma automática - em sua fala, me fazendo entender muito sobre esse combate diário. Na entrevista, a moça dizia que todos os dias, quando precisava ir à algum lugar, ela colocava sua roupa, erguia sua cabeça e caminhava de maneira firme, altiva. Por ser mulher, gorda e negra. Eu sou mulher e gorda e também sempre fiz isso, pelo mesmo motivo que aquela menina fazia: não me sentir menor por causa dos olhares das pessoas, por causa de seus julgamentos, das suas avaliações, fazia para me sentir bem e forte diante de seus olhares. Quantas vezes ouvi amigas e amigos perguntarei sobre a minha maneira agressiva de caminhar pelos lugares, sobretudo quando estava sozinha. Minha resposta era sempre uma negativa, tentando me apegar à uma essência minha, algo natural. Não era o que acontecia, aquela agressividade era eu me defendendo dos olhares por ser gorda e me escondendo dos olhares por ser mulher. Era a minha forma de ser combativa. 
E é sobre isso que devemos conversar com nossas meninas - filhas, sobrinhas, irmãs e etc. Sobre como o mundo olhará para elas e como elas não devem achar que esses olhares devem definir suas formas de ser, pois elas são fabulosas da forma que são. Devemos fazer com quê nossas crianças entendam como a sociedade patriarcal e capitalista em que vivemos funciona, o que ela constrói e o que ela destrói (nas pessoas, sobretudo). Se uma menina compreende como essa sociedade em que vivemos funciona, ela poderá entender que ao optar por sair com seu vestido curto quando já for adolescente ela deverá estar pronta para ser combativa - eu disse, ela deverá estar pronta, mas não de prontidão, à espera do combate. O ponto aqui é estar consciente sobre o que a saia curta representa para muita pessoas e a meninas não pode ser inocente sobre isso. É evitando a violência que ela poderá sofrer que tornaremos nossas meninas fortes. 



É ensinar que ela pode dançar do jeito que ela quiser, mas se um menino passar a mão em suas pernas por considerar que ela está sendo sensual e convidativa demais, ela pode fazer escândalo e afirmar com toda sua força que não quer ser tocada, que ela está apenas dançando com seu corpo, aquele corpo que pertence apenas a ela. 
Eu sempre falo sobre o risco de criar vazios nas formas sociais ao gritar por igualdade e desejar o fim de uma ordem posta sem apresentar novas formas de agir socialmente. Estamos há muito tempo nesse período de transição, em que homens e mulheres começam a compreender como devem se portar para criar uma sociedade objetivamente equânime  e que respeite as diferenças subjetivas. E isso só será possível se nossos meninos e meninas compreenderem que precisam saber escolher e se responsabilizar sobre suas escolhas, estando atentos e atentas à elas. 
Se um menino escolhe ser rude e passar a mão em uma menina por considerar que sua sensualidade o convida, ele deve assumir a responsabilidade pela resposta que ela dará à sua atitude. 
Se a menina opta por exercer sua liberdade através de suas roupas curtas ou decotadas, ela deverá está atenta aqueles que provavelmente considerarão tal liberdade um convite à libertinagem, ela deve estar pronta ao combate. 
Não se faz uma revolução sem dor, não se faz mudanças sem ferir a alma, mudar dói mesmo, mas talvez manter o sistema antigo doa muito mais. Sejamos combativas e combativos em nome da igualdade. 
Sejamos fortes!