segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Relacionamentos e generalizações estúpidas

Eu sou, oficialmente, solteira. Embora, não-oficialmente, não seja. O que eu quero dizer, é que o compromisso que eu tenho com meu par é, para mim/nós, como o compromisso de um casamento. Afinal, o compromisso tem que ser feito entre os dois envolvidos, não com o cartório ou com a igreja, não é mesmo? É o que me parece mais coerente.
Contudo, ninguém que eu conheço, sobretudo as pessoas casadas, concordam comigo quando eu afirmo que meu compromisso não é diferente dos que elas vivenciam. E eu tenho que ouvir uma lista de frases do tipo:

Você só vai saber quando morar junto com ele.
Você vai ver como muda quando casarem de verdade.

No cotidiano muita coisa muda. Você vai ver!

Todo homem é igual, o seu não será diferente!

Eu tenho dois filhos crianças e um adulto, todo mundo que eu conheço é assim.
Não casa não, continua do jeito que está. Piora muito quando casa.



Quando eu escuto essas generalizações eu só consigo pensar em uma coisa: resignação. Eu não consigo entender porque alguém reclama de fazer algo que ela pode simplesmente se recusar a fazer; entendo que todo mundo tem seu dia de cansaço, quando aceitar o que o outro quer se torna mais leve, mais fácil do que argumentar, brigar e etc. Mas tem dia que você tem que escolher entre viver sua vida toda reclamando por fazer algo que não quer e não é obrigada a fazer ou enfrentar e, no mínimo, tentar conversar sobre essa sobrecarga de ter que cuidar de uma pessoa adulta com capacidades como a sua.
Por exemplo: a pessoa com quem você vive não cuida das suas próprias roupas íntimas? Que tal informar a ela que você não irá cuidar mais? Ou... a pessoa com quem você vive nunca trocou uma fralda dos seus filhos? Que tal você informar que essa é uma obrigação dela também? Ou... a pessoa com quem você vive suja o vaso sanitário todo quando vai urinar? Que tal você pedir para ela sentar quando for urinar ou limpar a sujeira, se for muito difícil sentar?



A reclamação do último exemplo, quando eu a ouço, costumo realmente sugerir que as mulheres peçam aos seus maridos para urinarem sentados, algumas ficam atônitas, outras se calam; ainda tem aquelas que acham que não é possível e argumentam comigo que não dá, pois o pênis fica duro na hora de urinar (deve ser o pau do Hulk, pro cara não conseguir empurrar para baixo e segurar enquanto mija – e não tem nada disso de pau duro para mijar). 
E quando sugiro que ensinem seus filhos homens a urinarem sentados?

Blasfêmia... Eu deveria mesmo queimar na fogueira!

No final das contas, as reclamações são baseadas em mitos e convenções criados para justificar a resignação das mulheres diante dos homens. Eles, confortáveis que estão ou incapazes de compreender seus erros, não irão mudar suas atitudes por livre e espontânea vontade. Muitas vezes, as pessoas estão tão acostumadas a repetir padrões comportamentais que só entenderão que algo simples e modificável que ela faz está ferindo alguém que ama quando lhe for apontado.

Parem de achar que o passarinho azul irá soprar no ouvido do Príncipe Encantado que ela precisa ser mais educado e colaborativo. Conversem com seu par!
Ou pare de reclamar que a sociedade é machista se você alimenta essa sociedade. Seja ao menos coerente!

O que eu começo a entender ao ouvir tanto de que não existe outro tipo de esposa – toda esposa é mãe do marido – é que todas essas esposas que acreditam que só existem esposas/mães acreditam também que os seus maridos são incapazes de pensar ou mudar, ao pensar isso, elas também se tornam incapazes de pensar e mudar. Relacionamentos existem para que exista troca, que eu aprenda e ensine todos os dias. O cotidiano será exaustivo muitas vezes, eu compreendo isso, pois o seu par é um universo complexo que você precisará lidar todos os dias. Um outro universo completamente diferente do que você conhece, embora íntimo, profundamente íntimo.

Viver um relacionamento afetivo deveria ser sobre aprender a colaborar, a perdoar e a procurar os melhores momentos para apontar ao outro coisas que você identifica como passíveis de mudança nele sem destruir seu alicerce emocional. E vice-versa.

Eu tenho sorte! 



terça-feira, 11 de abril de 2017

[BBB17 - Marcos Expulso] Onde a sororidade acha obstáculo?


Sororidade: lat. soror,óris 'irmã, parente de sangue; companheira'.


Em italiano, a palavra para irmã é sorella - seguindo o radical latino soror.
Contudo, o que é sororidade dentro do movimento feminista? Qual é o uso comum que tem sido feito dessa palavra?  Essa palavra é utilizada, ao meu ver, com dois grandes objetivos: 1) unir as mulheres para que elas defendam-se mutuamente quando se trata da dominação e abusos do patriarcado que recai sobre nós e 2) desestimular a rivalidade entre as mulheres.


Dito isto, começo o texto com uma experiência particular, ilustrativa para que compreendam meu ponto aqui. Contarei a história de uma situação que vivenciei uma única vez  - se a situação voltar ao meu olhar, tenho certeza que voltarei a vivenciá-la quantas vezes forem necessárias. 

Eu estava saindo de uma faculdade na minha cidade e ao chegar onde eu havia estacionado meu veículo - um lugar com pouquíssima luminosidade - havia um casal que estava conversando de uma forma agressiva. Ele estava com os braços ao redor do corpo dela - como um abraço - prendendo-a e ela estava com os braços dobrados, junto ao próprio corpo, em posição de defesa, pedindo que ele a soltasse para conversarem e tentando empurrá-lo com o antebraço. Ela não gritava, ele também não. Mas ele a mantinha presa pedindo explicações sobre alguma situação. Quem via de longe poderia considerar que era uma conversa corriqueira, mas não era. Ela falava baixo e empurrava, dizia "por favor, me solta, vamos conversar direito". Eu pensei um milhão de vezes o que eu deveria fazer, desde o momento que entendi o que estava acontecendo. Decidi por interromper aquilo, fui até o casal, fiquei há dois passos largos dela e dele, e falei amigavelmente: - Moça, faz favor aqui. (meu coração se agita só de lembrar daquele dia - é difícil tomar essa decisão, principalmente quando estamos sozinhas, era apenas eu e dois desconhecidos em um estacionamento escuro - também tive medo do que ele poderia fazer). Ela olhou para trás assustada, ele me olhou e respondeu que ela não iria. Eu dei um pequeno passo para frente e disse, ainda amigável, apontando para ela: - Eu quero falar com ela. Por favor, moça, vem aqui falar comigo. Ela olhava para mim e para ele, não falava nada, mas começou a lacrimejar. Foi quando eu falei em tom impositivo: - Solta ela, pois EU VOU FALAR COM ELA. Ele se manteve firme e com um olhar desafiador. Ela olhou para ele e lacrimejando falou: - Deixa eu ir lá.  Ela veio até mim, eu segurava o choro, ela lacrimejava e eu falei segurando suas mãos: - Você não precisa passar por isso. Você não precisa. Quer sair daqui? Você está bem?  Ela apenas balançava a cabeça positivamente e disse que estava bem. Não quis sair dali, disse que iria conversar com ele ainda. Eu perguntei se podia abraçá-la, ela permitiu. No meu abraço ela deu um forte suspiro, meus olhos encheram d'água, mas eu fui embora com uma dor no peito tremenda, chorando de mansinho pelo caminho. Até onde eu conseguia vê-la, durante a minha saída, ela continuou conversando com ele em certa distância, mas o resto, o resto eu não sei. 

***

Essa história já tem muito mais do que um ano de acontecida. Contudo, quis trazê-la a baila por causa do famigerado caso do BBB17, com os personagens Emilly e Marcos. Acompanhei tudo pelo twitter e ontem eu assisti o programa na TV - vi o anúncio ao vivo da expulsão (ainda acompanhando o twitter) - e vi o desespero da Emilly ao saber que ela foi considerada agredida, que ela estava sofrendo abusos que se enquadram na chamada Lei Maria da Penha (Lei 11.340 de 2006), que ele poderia pensar que ela o havia prejudicado. 
Quando eu interrompi o casal na história acima, eu senti que eu havia envergonhado a garota, pois eu expus o que talvez ela não queria expor quando não gritou ou fez escândalo para que o rapaz a soltasse. Eu trouxe a tona o abuso e, acredito, deve ser muito difícil aceitar que a pessoa por quem você está apaixonada está sendo abusiva (como também é difícil aceitar que sua mãe ou seu pai está sendo abusivo). É a dor que se mistura com a paixão (amor) e parece ser vergonhoso amar quem tanto nos faz mal e nos machuca. Emilly segue declarando que nada aconteceu, que não quer fazer mal a ele e que ela sabe que ele nunca a machucaria. Quantas mulheres deixam de denunciar para não fazer mal ao homem que acredita amar? Quantas deixam de denunciar pela vergonha de ser vista como a otária que escolheu o abuso? Ou por acreditar que se houver amor, a Fera ainda vai virar o príncipe da Bela? Quantas morrem por manter essas posturas? 
A produção do programa não fez mais do que sua obrigação, era necessário resguardar a integridade física das mulheres dentro da casa. O Marcos realmente ameaçava essa integridade. 

Entretanto, o que mais me incomodou no twitter foram as mulheres culpando a Emilly e outras ironizando o apoio que as outras duas personagens do programa tentavam dar à Emilly. 

Ao culpar a Emilly, dizem que ela o provocava, que ela era louca e obsessiva, que tudo que ele fez foi uma resposta a pressão que ela vinha fazendo para que ele não fosse visto como um banana e a defendesse. Daí parece que para deixar de ser banana ele passou a ser agressivo não só com quem ela queria que ele fosse, mas também com ela mesma. Com essa linha de pensamento, as pessoas ironizavam o fato de ela ter colhido o que plantou. No entanto, as pessoas que falam sobre isso parecem esquecer que existe uma lei que protege as mulheres das diversas formas de violência e que foi baseada nesta lei e em denuncias anônimas de agressão à ofendida que a justiça precisou sim, meter a colher em briga de marido e mulher. Em caso de violência doméstica - contra mulheres, inclusive - havendo denuncia anônima, ao verificar a denuncia a polícia procurará por indícios de abusos, sobretudo de agressão física, pois esta não precisa ser denunciada pela ofendida para que seja registrada a ocorrência. A Lei Maria da Penha age como uma lei de 'tutela especial', que visa proteger uma população específica por esta sofrer com atitudes que estão vinculadas à cultura da sociedade. Já o Marcos, se ele se sentiu ofendido em algum momento, deveria ter denunciado, pois ele - por não se enquadrar em qualquer perfil de minoria - não possui 'tutela especial' do Estado. 

Portanto, as atitudes da Emilly não justificam as atitudes do Marcos, a lei não lida com "estamos quites".Emilly não é culpada, a culpada pela expulsão do Marcos é a Lei Maria da Penha. 


As pessoas que ironizavam o apoio que as outras mulheres tentavam dar à Emilly não estavam erradas em uma coisa, houve apoio presencial, mas quando estavam distantes da Emilly, Ieda fez comentários machistas com Vivian que buscavam justificar os abusos sofridos pela menina e, todas afirmam, a Vivian nunca gostou da Emilly. A sororidade é uma prática complicada. E ao falar que não houve sororidade, parece que as pessoas esperam que quem pratica sororidade seja perfeita. Que ela não esteja confusa sobre o que aconteceu ou que ela tenha um amor incondicional tão grande pelas outras mulheres que as defenderá de forma absoluta. Porém, a sororidade tem um grande obstáculo: o afeto. E considero que a identificação absoluta com a Emilly e a defesa incondicional por parte das outras duas mulheres que estão com ela naquela casa não seria possível, pois elas não se amam. E ainda, elas estão em um jogo em disputa por uma grande quantia de dinheiro - o que dificulta a aproximação afetiva das pessoas em tão pouco tempo. 
O Big Brother Brasil não imita a vida real, na vida real temos tempo e liberdade para escolher nossos afetos.

Acreditar piamente que Ieda e Vivian deveriam amar incondicionalmente a Emilly a partir da situação trágica ocorrida é insano. É quase o mesmo que leitoras ou leitores lessem a história que contei acima e começassem a me repreender por não ter salvado aquela menina do seu namorado, ou começassem a me criticar dizendo que fiz muito pouco por aquela menina. Eu fiz o que eu poderia fazer, eu agi com a medida da intimidade que eu tinha com aquela menina; não consegui avançar mais e 'salvar' aquela moça da conversa agressiva com o namorado, ela fez a escolha dela, escolha que eu considero errada, cega, mas eu não pude obrigá-la a ver como eu via, isso não quer dizer que eu não pratiquei sororidade. Ao apoiar a Emilly, Ieda e Vivian agiram com sororidade sim, mas isso não quer dizer que elas também não possam estar confusas sobre o que aconteceu ou que não irão fazer julgamentos. A prática de qualquer nova atitude é vagarosa. 


Além do mais, como eu já afirmei acima: a medida da sororidade que conseguimos praticar esbarra no afeto que conseguimos ter pela irmã que precisa de nosso apoio. É difícil apoiar incondicionalmente uma pessoa desconhecida. É mais fácil quando é alguém que a gente ama, pois eu garanto a você que se aquela garota que abracei no estacionamento da faculdade fosse uma das minhas mulheres - das mulheres que eu amo - ela não teria ficado ali, ela teria ido para casa comigo. Pois a medida da minha sororidade, infelizmente, é o meu afeto e minha intimidade.